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O Lado B da Literatura

Rodrigo Melo Franco, o escritor que salvou a memória do Brasil

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto: Hemeroteca Digital Brasileira

Rodrigo Melo Franco de Andrade dedicou trinta anos a impedir que o Brasil perdesse os vestígios materiais de sua história. Seu próprio livro, no entanto, se perdeu pelo caminho.

Em 1936, publicou Velórios, reunião de oito contos atravessados pela morte, pelos rituais que a cercam e pelo comportamento dos que permanecem vivos. Foi seu único livro de ficção. O título, seco e exato, nasceu de uma sugestão do amigo Manuel Bandeira.

A primeira edição foi pequena, custeada pelo próprio autor. Pouco depois do lançamento, segundo registrou a imprensa da época, Rodrigo andou recolhendo os exemplares, para espanto dos amigos. Não deixou uma explicação definitiva para o gesto. Pode ter sido excesso de autocrítica, pudor ou simplesmente a mudança de rumo de quem já começava a ser absorvido por outra obra. O fato é que Velórios desapareceu das livrarias e somente voltaria a ser publicado em 1974, cinco anos depois da morte de seu autor.

Esse contista quase esquecido nasceu em Belo Horizonte, em 1898, no interior de uma família em que as letras, o Direito e a vida pública circulavam com naturalidade. Perdeu o pai aos três anos e foi, em grande parte, criado pelo tio materno Afonso Arinos de Melo Franco, autor de Pelo sertão, um dos nomes importantes da literatura regionalista brasileira.

Aos doze anos, Rodrigo seguiu para Paris, onde viveu na casa do tio e estudou no Lycée Janson-de-Sailly. O ambiente doméstico era frequentado por escritores, artistas, políticos e intelectuais brasileiros de passagem pela França. Antes mesmo de tomar parte nas discussões modernistas, portanto, Rodrigo já havia crescido entre livros e conversas sobre o país.

Rodrigo também se formou em Direito. Na juventude, sonhou tornar-se jurista e produzir um alentado estudo sobre a ação declaratória. O tratado jamais foi escrito. A advocacia, assim como a literatura, acabaria cedendo espaço a uma atividade que, naquele momento, ainda nem sequer existia de maneira organizada no Brasil.

Sua produção poética foi mínima. Manuel Bandeira o incluiu entre os poetas bissextos, aqueles que escreviam versos apenas em ocasiões raras. No caso de Rodrigo, talvez fosse o mais bissexto de todos: publicou poemas na revista Estética, mas deixou apenas uma presença discreta no gênero. A prosa de ficção também se resumiu aos contos de Velórios.

A escassez da obra não deve ser confundida com afastamento do meio literário. Rodrigo participou ativamente da vida intelectual de seu tempo. Começou no jornalismo em 1921, escreveu crítica literária, trabalhou em O Jornal e passou pela Revista do Brasil. Aproximou-se de Mário de Andrade e conviveu com os jovens escritores que consolidavam o Modernismo no Rio de Janeiro.

Ele não esteve entre os protagonistas da Semana de Arte Moderna de 1922. Sua participação ocorreu depois, quando o movimento deixava de ser apenas um gesto de ruptura e começava a se transformar numa investigação do Brasil. Rodrigo pertenceu à geração que procurou reconhecer o país em sua arquitetura, em suas cidades antigas, em seus documentos e em sua arte.

Com Manuel Bandeira, a relação ultrapassava os encontros literários. Eram amigos muito próximos. Na intimidade, Rodrigo chamava o poeta de Manula. Bandeira, por sua vez, encontrou poucos versos para definir o amigo em Mafuá do Malungo:

Como melhor precisar
esta palavra amizade?
Nomeando o amigo exemplar:
Rodrigo M. F. de Andrade.

Não foi casual, portanto, que Bandeira tenha sugerido o título de Velórios. A amizade continuou dentro da casa de Rodrigo. O poeta tornou-se padrinho de seu filho Joaquim Pedro de Andrade, que seria um dos grandes diretores do Cinema Novo, autor de filmes como Macunaíma e Os inconfidentes.

Em 1959, Joaquim Pedro filmou o padrinho em O poeta do Castelo. O curta-metragem acompanha Bandeira em seu apartamento e nas ruas do centro do Rio, em cenas simples de sua rotina. O poeta cozinha, arruma a casa, caminha pela cidade e lê os próprios versos. Por trás daquele filme estava uma convivência iniciada muito antes de o jovem cineasta pensar em empunhar uma câmera.

No mesmo ano em que publicou Velórios, Rodrigo começou a participar do projeto que mudaria sua vida. Em 1936, por indicação de Mário de Andrade e do próprio Manuel Bandeira, foi chamado pelo ministro Gustavo Capanema para organizar o serviço federal destinado à proteção do patrimônio histórico e artístico brasileiro.

O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foi oficialmente instituído em 1937. Rodrigo assumiu sua direção e permaneceu no cargo até 1967, atravessando governos, crises políticas e mudanças administrativas. Durante três décadas, o patrimônio tornou-se sua ocupação principal. A literatura, o jornalismo e o Direito foram ficando para trás.

O SPHAN encontrou um país que conhecia mal os próprios monumentos. Igrejas, casarões, esculturas, pinturas, documentos e conjuntos urbanos permaneciam expostos ao abandono, às reformas destrutivas e ao interesse de comerciantes que retiravam obras de seus lugares de origem. Não havia inventário abrangente, política continuada de conservação nem uma estrutura pública preparada para agir.

Sob a direção de Rodrigo, começaram os levantamentos, os tombamentos e as obras de restauração. Formaram-se arquivos, reuniu-se um acervo fotográfico e criou-se uma biblioteca especializada. Museus foram organizados. Pesquisadores passaram a percorrer cidades antigas, localizar documentos e estudar artistas cuja obra ainda permanecia dispersa ou mal conhecida.

Rodrigo também compreendeu que não bastava preservar edifícios. Era necessário produzir conhecimento sobre eles. Criou uma linha editorial própria, da qual fizeram parte as publicações técnicas do órgão e a Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O SPHAN tornou-se, ao mesmo tempo, repartição pública e centro de estudos.

Para isso, ele mobilizou a rede intelectual de que fazia parte. Mário de Andrade participou da formulação inicial do projeto. Manuel Bandeira escreveu o Guia de Ouro Preto. Carlos Drummond de Andrade trabalhou durante anos na instituição. Arquitetos, historiadores e pesquisadores foram chamados a colaborar. Rodrigo tinha a capacidade de reunir pessoas muito diferentes em torno de um trabalho comum.

O Modernismo chegava, assim, ao interior do Estado. A geração que havia começado contestando a cultura oficial passou a decidir o que deveria ser reconhecido como patrimônio nacional. Aquilo que antes era assunto de escritores, artistas e estudiosos transformou-se em política pública.

Não se tratava apenas de conservar prédios antigos. Ao escolher os bens que mereciam proteção, o SPHAN ajudava a formar uma imagem do Brasil. Durante os primeiros anos, essa imagem foi construída principalmente em torno da arquitetura colonial, das cidades históricas mineiras, do barroco e da arte religiosa.

Era uma escolha compreensível dentro daquele momento, mas não abrangia toda a experiência cultural brasileira. Durante muito tempo, manifestações populares e bens ligados a outros grupos sociais permaneceram fora do centro da política patrimonial. Preservar nunca é um ato neutro. Aquilo que se protege adquire visibilidade; o que fica de fora corre o risco de desaparecer em silêncio.

A limitação não diminui a importância da obra realizada. Antes de Rodrigo Melo Franco de Andrade, a proteção do patrimônio dependia de iniciativas isoladas e frequentemente tardias. Depois dele, passou a existir uma responsabilidade pública definida, acompanhada de conhecimento técnico, documentação e instrumentos jurídicos.

A imprensa traçou certa vez o retrato de um homem recolhido em seu gabinete, atormentado pela perda de uma igreja, de um convento ou de uma imagem antiga. Enquanto outros viam apenas construções envelhecidas, Rodrigo enxergava partes de uma história comum que não poderiam ser refeitas depois de destruídas.

A mesma reportagem dizia que ele havia renunciado, ainda jovem, a vários futuros. Poderia ter seguido carreira no Direito, continuado no jornalismo ou insistido na literatura. Preferiu dedicar a maior parte da vida a uma instituição ainda incerta, em um país que raramente se mostrava cuidadoso com o próprio passado.

Essa escolha acabou encobrindo o escritor. Rodrigo Melo Franco de Andrade tornou-se uma referência incontornável na história da preservação cultural brasileira, mas Velórios permaneceu durante décadas como uma lembrança entre amigos, críticos e colecionadores.

Rodrigo morreu no Rio de Janeiro, em 1969. Deixou um único volume de ficção e uma outra obra, a de preservação, até hoje espalhada pelo Brasil.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava. Autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.

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