Neologismos criativos
Romantismo do idioma ajuda o brasileiro a recriar o português
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Própria, independente, a língua portuguesa é formada da mistura de muito latim vulgar com o árabe. Originada no galego-português falado no Reino da Galiza e no Norte de Portugal, o idioma é usado, além de Portugal e do Brasil, em outros sete países africanos. Rica e com enorme variedade de sons, é comum encontrar palavras que embolam a língua e produzem ecos interessantes. Considerado um idioma romântico, o português certamente já provocou risadas em muitos dos quase 300 milhões de falantes, inclusive os 213 milhões de brasileiros. Usadas no cotidiano, palavras incomuns com fonética estranha podem dar origem a engraçadas comédias, principalmente se faladas com ênfase.
As nuances linguísticas dos países de língua portuguesa são interessantes. No entanto, nada se compara à facilidade do brasileiro para diariamente criar palavras ou expressões novas para designar um novo conceito ou objeto. São os chamados neologismos. E não importa que os “criadores” não tenham cultura ou conhecimento de léxica, semântica ou sintaxe. Importante é e ter criatividade. Googlar, shippar, deletar, linkar, escanear, deboísmo, internetês, empoderar, zebrar, kd, tbm e hj não são termos do meu tempo. Na minha infância e juventude, éramos mais pragmáticos e muito menos americanizados. Por isso, levei meses (acho que anos) para assimilá-los e internalizá-los. Ainda hoje apanho quando os ouço nas ruas.
E é nas ruas onde a gente aprende o verdadeiro português usual. Na academia, tomamos conhecimento da língua para concursos, redações, discursos e embates entre políticos, artistas e intelectuais. É claro que nem todos alcançam o estrelato. Não sei o que significa o termo nos salões religiosos, mas, desde menino, aprendi, por exemplo, que pirocar nada tem a ver com a saliência, com fornicar, com obscenidade ou vulgarismo. Trata-se de um verbo transitivo direto, que quer dizer tão somente perder a casca, o pelo ou o cabelo, isto é, encalvecer. Obviamente que o contexto é que define se determinada palavra é uma profanidade, um xingamento ou palavrão, também conhecido nos lares mais conservadores como baixo calão.
O melhor do português do Brasil são as expressões seculares com roupagens e sentidos populares e atualizados de acordo com a região. Sem nove horas, aperreios e longe de pensar na morte da bezerra, qual de nós nunca encheu o boga de cana antes de enfrentar a pororoca, apelidada pelas dirigentes das boas casas do ramo por Judite, Aranha, Perseguida ou Passarinha. Melhor é eufemisticamente alcunhar o sujeito reprodutor de Calabreso, Mussarelo, Tilápio, Ludmilo, Madonno ou Panqueco. Seja lá o nome que queiram dar ao que quiserem, bonito é a forma encontrada pelo brasileiro para minimizar a má sorte, a pouca valia, o feitiço, a falência, a comida malfeita, os exageros, os chiliques e a comida ruim, entre outros.
Não necessariamente nessa ordem, essas expressões podem ser substituídas pelos termos mequetrefe, salamaleque, piripaque, serelepe, bugiganga, quinquilharia, beleléu, balacobaco, faniquito, quiproquó, ziquizira, zunzunzum, chumbrega, tribufu, bulhufas, espelunca, gororoba, mixiruca, pindaíba, sacripanta, songamonga, urucubaca, xexelento, bufarinha, espiroqueta, estrambótico e estrogonófico. Apesar de toda a riqueza linguística, curiosamente o português não faz parte dos idiomas oficiais da Unesco. Dizem as más línguas que é tudo culpa do português da terra de Camões, onde a fila é bicha, o entendido é paneleiro, a calcinha é cueca, o pedestre é peão, o cafezinho é bica, o xaveco (cantada) é piropo, bater as botas é dar o peido mestre, criança é puto e, o pior deles, injeção nas nádegas é pica no toba. A turma da Unesco se sentiu ofendida. Curioso é que a sede da entidade é em Paris, onde chamam pescoço de cou.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras