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O LADO B DA LITERATURA

Rose Marie Muraro, a visão que avançou além dos próprios olhos

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Autor/Imagem:
Cassiano Condé - Foto Reproduzida da Internet

Se a história do Brasil moderno fosse um livro, Rose Marie Muraro (1930–2014), a retratada de hoje em O Lado B da Literatura, seria a autora que reescreveu os capítulos sobre liberdade. Conhecida como a Patrona do Feminismo Brasileiro, Rose foi muito mais do que uma intelectual; foi uma força da natureza que equilibrou, com suavidade e firmeza, a rebeldia política e uma profunda espiritualidade.

Rose nasceu com apenas 5% da visão em um dos olhos devido a sequelas de problemas nos primeiros dias de vida. Ironicamente, a mulher que mal conseguia ver as letras no papel tornou-se uma das maiores editoras e escritoras do país, assinando mais de 40 livros e editando outros 1.600. Ela frequentemente se descrevia como uma superadora de barreiras físicas e sociais, o que lhe rendeu o apelido de “mulher impossível”.

Sua luta começou cedo. Aos 5 anos, foi retirada da escola por sofrer preconceito devido à sua deficiência visual. Longe das salas de aula tradicionais, ela “devorou” a obra de Monteiro Lobato, formando sozinha uma base intelectual que a levaria, décadas depois, a lecionar em universidades como Harvard e Cornell.

Diferente de muitas vertentes do feminismo que se afastavam da religião, Rose manteve um vínculo profundo com a espiritualidade. Ela foi peça-chave na Teologia da Libertação, trabalhando por 17 anos na Editora Vozes ao lado de Leonardo Boff. Juntos, eles provocaram reflexões que sacudiram as estruturas da Igreja Católica no Brasil, unindo justiça social e direitos das mulheres.

Em uma de suas experiências mais curiosas para entender a desigualdade de gênero, Rose escreveu sobre “os seis meses em que foi homem”. Ela analisava a fundo a construção da masculinidade para explicar por que a libertação das mulheres também dependia da transformação dos homens.

Sua importância foi tamanha que, em 2005, sua contribuição foi eternizada pela lei: ela foi declarada oficialmente a Patrona do Feminismo no Brasil. Mesmo após sua morte, em 2014, Rose continua sendo lembrada como uma pioneira que usou sua “visão antecipadora” para desenhar um futuro onde o afeto e a igualdade caminhassem juntos.

Para quem deseja conhecer sua voz, sua autobiografia “Memórias de uma Mulher Impossível” é um ponto de partida sensível para entender essa trajetória de luz em meio a tantas sombras.

“A vida é um deserto, mas o amor é a fonte que o torna habitável.” — Rose Marie Muraro.

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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.

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