Inverno de -5 a menos 10
Rússia despeja bombas em Kiev e deixa um milhão de ucranianos no frio
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Enquanto representantes da Rússia e da Ucrânia tentavam, nos Emirados Árabes Unidos, encontrar uma saída diplomática para quase quatro anos de guerra, mísseis e drones russos cruzavam o céu de Kiev na madrugada deste sábado. O resultado foi devastador: mais de 1 milhão de residências ficaram sem energia elétrica, grande parte delas também sem aquecimento, em meio a temperaturas que oscilaram entre –5 °C e –10 °C.
O bombardeio atingiu infraestruturas críticas do sistema energético, repetindo uma estratégia já conhecida de Moscou: pressionar a retaguarda civil ucraniana durante o inverno, quando a dependência de eletricidade e calefação se torna vital. Só na capital, centenas de milhares de moradores enfrentaram horas — e em alguns bairros, dias — de apagão, obrigando autoridades locais a abrir centros de aquecimento de emergência.
Segundo a prefeitura de Kiev, milhares de prédios residenciais e comerciais ficaram sem fornecimento regular de energia, enquanto equipes técnicas corriam contra o tempo para conter danos maiores. Houve registro de mortos e feridos, além de impactos diretos em hospitais e serviços essenciais, ainda que muitos tenham operado com geradores.
O momento do ataque não passou despercebido. As explosões coincidiram com o andamento das negociações de paz em Abu Dhabi, mediadas por atores internacionais. A ofensiva levou à suspensão imediata das conversas, lançando dúvidas sobre a disposição real do Kremlin em avançar no diálogo diplomático.
Do lado ucraniano, a leitura foi direta: o ataque foi interpretado como um recado político e militar, sinalizando que Moscou negocia sob fogo e não abre mão da pressão bélica como instrumento de barganha. Autoridades de Kiev classificaram a ofensiva como “cínica” e afirmaram que não há ambiente para diálogo enquanto a população civil é usada como alvo indireto da guerra.
Analistas internacionais observam que o episódio reforça um padrão recorrente do conflito: quando a mesa de negociações se aproxima, o campo de batalha esquenta. Ao atingir a infraestrutura energética em pleno inverno, a Rússia amplia o custo humano do conflito e testa, ao mesmo tempo, a resistência interna da Ucrânia e a paciência de seus aliados ocidentais.
Apesar da suspensão, diplomatas envolvidos no processo ainda falam em retomar as negociações em nova data. No terreno, porém, a realidade segue outra: Kiev tenta religar a cidade, aquecer seus moradores e enterrar seus mortos, enquanto o conflito demonstra, mais uma vez, que a paz continua distante — e frágil.
Nos bastidores, o ataque também foi lido como uma manobra calculada de pressão direta sobre Estados Unidos e União Europeia. Ao aprofundar a crise humanitária em pleno inverno, Moscou eleva o custo político do conflito para as capitais ocidentais, que enfrentam desgaste interno com o prolongamento da guerra, a manutenção de sanções e o envio contínuo de ajuda militar a Kiev.
A mensagem é dupla: para Washington, trata-se de testar os limites do apoio financeiro e estratégico em ano de forte polarização política; para a Europa, especialmente países mais dependentes de estabilidade energética, o bombardeio funciona como lembrete de que a guerra segue capaz de desorganizar mercados, provocar novas ondas migratórias e tensionar governos já pressionados socialmente. Nesse tabuleiro, a infraestrutura civil ucraniana vira moeda de troca indireta — um instrumento de barganha que fala mais alto do que os discursos diplomáticos.