Terra de dinossauros
Saara, oceano de areia, já foi mar de água doce
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Há algo de profundamente irônico em escavar o deserto e encontrar água. Foi o que aconteceu no território do Níger, onde paleontólogos trouxeram à luz ossos que pertencem a uma criatura que jamais conheceria a aridez atual. A nova espécie — Spinosaurus mirabilis — não caminhava sobre dunas, mas à beira de rios lentos, sob um céu pesado de umidade, quando o mundo ainda era jovem demais para ser seco.
O Saara, hoje um oceano de areia, já foi um arquipélago de água doce. Há cerca de 95 milhões de anos, a África se afastava lentamente da América do Sul, como duas placas que se despedem sem pressa. A crosta rangia, o planeta exalava calor, e o clima global era uma estufa contínua. Não havia gelo permanente nas extremidades do mundo. O calor alimentava florestas, pântanos e rios que serpenteavam por planícies largas.
Peixes gigantes cortavam as águas turvas. Crocodilomorfos patrulhavam margens. Tartarugas de casco espesso descansavam no lodo morno. E, entre eles, um predador de focinho alongado avançava como quem conhece cada curva do rio.
O espinossauro não era apenas um carnívoro terrestre: era um habitante da fronteira — entre terra e água, entre caça e mergulho.
O Spinosaurus mirabilis tinha dentes cônicos, ideais para segurar presas escorregadias. Seu focinho lembrava o de um crocodilo. A vela nas costas recortava o horizonte verde como uma bandeira orgânica. É possível que passasse horas à margem, imóvel, até o momento exato do bote.
Há uma elegância nisso. É que enquanto outros terópodes dominavam planícies abertas, ele escolheu o rio. Enquanto alguns perseguiam presas terrestres, ele preferiu a abundância líquida. O Cretáceo africano não era um palco simples de gigantes correndo em poeira vermelha; era um mosaico de nichos ecológicos, cada qual ocupado por criaturas especializadas.
A natureza, na realidade, não improvisava; ela experimentava. O planeta daquele tempo era mais quente, mais úmido, mais intenso. O dióxido de carbono circulava em concentrações superiores às atuais. As florestas prosperavam. A produtividade biológica era alta. A cadeia alimentar, complexa.
Não se tratava de um paraíso, mas de um equilíbrio diferente. O que hoje parece inóspito já foi exuberante. O que hoje é silêncio já foi ruído de água corrente, asas primitivas e mandíbulas fechando-se sobre escamas.
Deserto, uma biblioteca
O mais curioso é que o Saara guarda tudo isso. Sob as dunas móveis, repousam camadas sedimentares depositadas por antigos rios. Arenitos e argilas preservaram ossos como quem arquiva cartas de uma era esquecida. Cada fóssil é um parágrafo. Cada esqueleto, um capítulo.
A descoberta no Níger não revela apenas um novo nome científico. Ela reabre uma paisagem.
Mostra que a África do Cretáceo não era um vazio, mas um centro pulsante de diversidade. Mostra que os dinossauros não cabem nas caricaturas de lagartos gigantes correndo em cenários uniformes. Mostra que a própria Terra muda de humor ao longo dos milênios.
Entre o verde e a areia
Talvez o que mais impressione não seja o tamanho do animal, mas o contraste. O mesmo solo que hoje queima sob o sol já sustentou margens úmidas. O mesmo horizonte que agora é pó já refletiu água.
O deserto é apenas um estado transitório. A Terra respira em escalas que desafiam nossa pressa. Expande oceanos. Fecha mares. Verdeja desertos. Seca florestas. Reinventa continentes.
E, de tempos em tempos, permite que escavemos o passado para lembrar que nada é fixo — nem mesmo o Saara.
