Curta nossa página


Errar e caminhar

Sabedoria oriental dá aula sobre persistência

Publicado

Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto Editoria de Artes/IA

Em muitas culturas ocidentais, o erro costuma ser tratado como uma falha moral, um desvio de competência ou, pior, uma marca de incapacidade. Errar é sinônimo de perder. Já no pensamento oriental, o erro raramente ocupa esse lugar punitivo. Ele é visto, antes de tudo, como etapa necessária do aprendizado.

Na tradição chinesa, influenciada por Confúcio, o saber não nasce do acerto imediato, mas da prática contínua. O homem virtuoso não é aquele que nunca cai, mas o que corrige o passo após cada tropeço. Há um antigo ensinamento atribuído ao confucionismo que resume essa visão: “Não importa a velocidade com que você avança, desde que não pare.” O erro, nesse contexto, não autoriza a desistência — ele exige persistência.

O taoismo aprofunda essa noção ao entender a vida como fluxo. Lao Tsé ensinava que resistir ao curso natural das coisas gera sofrimento. Errar, portanto, é apenas sinal de desalinhamento momentâneo com o Tao, o caminho. Ajusta-se o gesto, respira-se, tenta-se de novo. Insistir não é teimosia, é harmonização.

No Japão, o zen-budismo leva essa filosofia à prática cotidiana. O aprendiz de caligrafia, por exemplo, passa anos repetindo o mesmo traço. Cada erro fica visível no papel, sem correção ou disfarce. O erro não é apagado: ele permanece como registro do processo. A experiência, nesse sentido, é a soma de todos os traços imperfeitos que vieram antes do traço justo.

Essa visão contrasta com a ansiedade contemporânea por resultados rápidos, sucesso imediato e trajetórias lineares. O Oriente ensina que não acertar de primeira é o estado natural das coisas. Desistir, sim, é a ruptura do aprendizado. Quem erra e abandona interrompe a própria formação; quem erra e insiste acumula sabedoria.

Há ainda um aspecto ético nessa compreensão. Persistir após o erro é um gesto de humildade: reconhece-se que o saber não é dado, mas construído. Cada falha amplia a consciência dos limites e afina a percepção do caminho correto. A experiência, afinal, não é o oposto do erro — é o seu resultado amadurecido.

Num mundo que cobra perfeição instantânea, talvez valha reaprender essa lição antiga: errar não desqualifica ninguém. O que empobrece é parar. Insistir até acertar não é obstinação cega, mas um ato de confiança no tempo, na prática e na própria capacidade de transformação.

Porque, como ensinam os sábios do Oriente sem pressa e sem espetáculo, quem caminha errando ainda está caminhando. Quem desiste, já parou.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.