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O maior Show da Terra

Sabor de vó

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Festa é festa, tudo igual, alguém poderia dizer. Não, meu amigo, as festas possuem particularidades, cada uma com seu cada um: as nas casas dos amigos, as do trabalho, as daquele conhecido que somos forçados a ir só para fazer uma social, as de eventos religiosos, acadêmicos, esportivos e as temáticas. Estas, então, viraram febre, e haja paciência e disposição para os mais diversos assuntos: anos 70, 80 ou 90, Havaí, sereias, cinema, até unicórnios. Sim, já imaginou um bando de marmanjos fantasiados de unicórnios?

Entre tantas confraternizações, a única que me enche os olhos é o Natal, e não porque eu seja religiosa.  A questão é outra: amo ser espectadora dos constrangimentos de se unirem parentes e afins, cujos imbróglios são inevitáveis, já que as alfinetadas costumam acontecer bem antes da ceia, e não tem Jesus que acuda.

Noite de 24 de dezembro, a parentada toda se acotovelando na casa da minha avó, dona Lígia. Mulher de paciência praticamente infinita, porém com rompantes de fazer inveja a Caravaggio. Não chegou a matar algum desafeto, ao menos nunca nos chegou aos ouvidos, o que não impede de aventar dúvidas em todos nós, ainda mais quando ela emoldura o rosto com o olhar e o sorriso catárticos.

— Vovó, só mesmo a senhora pra conseguir juntar a tia Cleide com a minha mãe. Como a senhora consegue?

— O pernil, a maionese e a farofa, Laura.

— Sério?

— Aquelas duas não perdem um boca-livre.

— Tá, mas e o tio Ernesto com o Carlos?

— Hum! Mesma coisa, ou você acha que o seu irmão vai abrir mão de se esbaldar depois de passar o ano inteiro comendo macarrão com salsicha?

Não tiro a razão da minha avó, que sempre soube fisgar os desafetos pela boca. Sabor de vó tem dessas coisas, e não perco o seu suflê de aipim por nada deste mundo, ainda mais quando sei que o ingresso é a oportunidade para assistir ao maior show da Terra. Tratei de encher meu prato e fui me sentar em local estratégico para não perder nada do espetáculo, cujas cenas logo começaram a se desenrolar.

— Quando a gente imagina que o Natal é tempo de paz e celebração, eis que me aparece a serpente no paraíso.

É difícil defender a própria mãe quando foi dela a provocação acima. Tia Cleide, que costuma não levar desaforo para casa, tentou manter a classe, algo raríssimo entre os nossos. Arregalou os olhos como se pega de surpresa, virou-se e caminhou em minha direção. Devo ter feito cara de espanto, o que provocou quase um grunhido da minha tia.

— Tu viu o que a tua fez?

Se eu havia visto aquilo? É óbvio que sim! Afinal, eu estava ali justamente para ver a jiripoca piar.

— O quê, tia?

— Tua mãe.

— Mamãe?

— Você não viu mesmo, Laura?

— Desculpe, tia, estou cheia de problemas.

— Já sei! Brigou com o namorado.

— É. A gente brigou.

Menti. Julgue-me, melhor concordar do que pensar em outra mentira mais elaborada. Fingi olhos tristonhos, enquanto a noite maravilhosa que tive com o Pedro pululavam na minha mente. Como beija bem!

— Ah, liga não, Laura. Logo, logo vocês se acertam.

— É, tia.

A voz rascante do tio Ernesto interrompeu aquele interlúdio carregado de embustes.

— Tu é um moleque!

Esse elogio foi direcionado ao meu querido irmão. Um traste sem-noção, cuja única preocupação é se dar bem à custa do primeiro descuidado. Digo isso sobre o primogênito da minha mãe quase sem remorso. Não que ele seja tão ruim, às vezes até tem alguma serventia, como me dar carona para a faculdade.

— Cai dentro se tu é homem!

Pensando melhor, o Carlos está praticamente com os dois pés no inferno. Como é que ele teve coragem de desafiar o tio Ernesto para uma briga? Isso não é coisa que se faça, ainda mais porque o meu irmão não é, digamos, a mais intimidadora das criaturas. Se bobear, até eu consigo lhe dar umas boas palmadas.

— Cheeeeega!

Dona Lígia resolveu impedir que a sua sala se tornasse o Coliseu de Roma.

— Olha aqui! Vocês todos! A partir de hoje, pra me fazer raiva, vai ter que agendar. Aqui não é bagunça, não! Tem que ter organização.

Tio Ernesto e meu irmão ensaiaram um aperto de mão, o que seria demais. Cada um para o seu canto, problema resolvido. Foi aí que percebi a aproximação da minha mãe, que se postou bem ao lado da tia Cleide.

— Tu viu aquilo, Cleide?

— Pois é, Marisa. Que coisa!

— Parece que a dona Lígia não está bem hoje.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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