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Jus sperniandi

Sambódromo atropela motociata dos patriotas

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Assim como as cinzas se desfazem com o vento, que as tristezas de quem está triste há quase quatro anos criem asas e voem para bem longe dos que se guiam pelos caminhos da redenção e da renovação. Resta aos que se mantêm tristes exclusivamente por conta da alegria dos outros assumir que vieram do pó e que ao pó voltarão antes de o próximo carnaval chegar. Que as cinzas desta quarta-feira nos lembrem que a vida é breve e bela e que inspirem os extremistas a aceitar, sem ódio, intolerância e novos golpismos, uma eventual derrota eleitoral em outubro.

Sei que ainda é cedo para prognósticos definitivos. No entanto, parece tarde demais para que a direita nervosa busque nos tribunais uma forma inusitada de golpear uma candidatura que se anuncia vencedora. Embora tenha desagradado os adversários, o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Luiz Inácio não feriu regulamentos, normas, costumes, tampouco regras eleitorais. Da mesma forma que Lula foi “cantado” em verso e prosa na Marquês de Sapucaí, Jair Bolsonaro foi endeusado nas pré-campanhas de 2018 e em 2022.

Sempre com o cartão corporativo, ora em motociatas, ora montado em um jet-ski no Lago Paranoá, ora “pregando” com os dos dois olhos abertos nos cultos evangélicos ou nas manifestações de fins de semana na orla de Copacabana e na Avenida Paulista, o então candidato Jair Bolsonaro fez a segunda campanha no cargo de presidente da República. Para os bolsonaristas, a maratona do mito foi tida e havida como legal. Segundo os fanáticos, o ir e vir nababesco não passou de um gesto nobre de patriotismo.

Apesar dos gastos faraônicos, ganhou uma e perdeu a outra. Como cresceu politicamente desprovido de méritos, perdeu unicamente em decorrência de seus deméritos. Que eu me lembre, em nenhum momento Fernando Haddad e Luiz Inácio forçaram a barra e tentaram derrubá-lo no tapetão em 2018. Desde aquela época, ambos entendiam que o vencedor é aquele que não se contenta com a derrota. Está provado que a incapacidade de aceitar a derrota provém da ignorância. Reconhecê-la é um gesto de humildade. É saber que o postulante não foi bem em determinado momento.

Portanto, na atual disputa presidencial, ainda que se achem no direito de recorrer à justiça, que pelo menos os adversários tenham o dever de reconhecer que o caminho da vitória ou da derrota quem determina somos nós. No caso em questão, nós são os que, antecipando os recursos sujos dos derrotados, pretendem judicializar um desfile carnavalesco. Mesmo tendo percebido que não houve qualquer ilegalidade de Lula na Sapucaí, o bolsonarista Nikolas Ferreira, líder do Bloco dos Pelasaco, é um deles. Como ilustração, lembro que, pouco antes da prisão de Bolsonaro, Nikolas disse que, caso Jair fosse preso, o Brasil iria parar.

O Brasil parou? Nada a se estranhar de um parlamentar para qual não existe ninguém no mundo além de Jair Bolsonaro. Para Nikolas, brincadeiras boas só as suas. Do alto de sua caminhonete vermelha, ele se associou ao PL, a Flávio Bolsonaro e a Michel Temer contra a homenagem da escola de samba niteroiense a Lula da Silva. Faz parte do jogo. As prévias indicam que, a exemplo da tentativa de impedir o desfile, a inelegibilidade do pré-candidato petista por propaganda eleitoral antecipada será negada. Repito o que escrevi sobre o jus sperniandi dos bolsonaristas em outubro de 2022: Quem não aceita perder, não pode pensar nunca em ganhar. De forma mais light, se não sabem perder, não desçam para o play.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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