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Sargento ao ponto

Sanduíches viram discórdia na terra dos marechais

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Além do jornalismo, adquiri alguns parcos conhecimentos de publicidade e propaganda. O principal deles é que marketing é uma guerra mental. Depois, descobri que há muito mais dinheiro para quem faz o marketing dos produtos do que para quem fica só na produção. Tentei falar com a audiência na linguagem deles, mas desisti tão logo percebi que o conteúdo não era o rei, mas o reino. Hoje, não basta satisfazer os clientes. É preciso encantá-los. Isso, o Santo Graal da matéria, eu nunca alcancei. Por isso, decidi usar a cabeça e a suposta inspiração para motivar pessoas com a ferramenta das ideias na forma menos matemática. A criação parcialmente enganosa não me atrai. No entanto, sou sempre atraído pelos que têm criatividade.

É o caso de um pequeno empresário alagoano do ramo alimentício. Dono de uma lanchonete na cidade de Penedo, distante 170 km de Maceió, o sujeito acabou preso por conta de seu potencial criativo. O excesso de inventividade realmente faz mal aos chatos, enfadonhos, aborrecidos e profissionalmente malsucedidos. São aqueles que, por qualquer razão, ficam mais nervosos do que garotas de programa na primeira fila de uma igreja. Levada a efeito por conta do batismo de seus simplórios sanduíches com patentes militares, a prisão do comerciante da terra dos santificados Fernando Collor, Arthur Lira e do falecido Paulo César Farias me impediu de comer um coronel ao ponto. Não no literal, é claro, porque não saberia onde descansar o bibico.

O que era somente uma licença poética, algo como estratégia do tal marketing, acabou em dor de cabeça para o pobre do civil Alberto, também Lira, mas de linhagem mais castiça. Resmungando pública e solenemente, o comandante da Polícia Militar na cidade entendeu a ideia como ofensa à Corporação e gritou para o Lira dos bons: Teje preso. O argumento do militar para detenção do dono do Mister Burg foi estrognoficamente rocambolesco. Para o comandante, o sanduíche mais caro, não ficaria bem alguém adentrar o estabelecimento e, no meio da clientela, pedir um coronel mal passado. Pior seria sair da lanchonete dizendo que acabou de traçar um sargento.

Por mais que pareça folclore nordestino, o fato é antigo e venéreo, conforme o blogueiro Juarez Chaves. Como em qualquer imbróglio desse tipo, o caso foi parar na delegacia, onde foi lavrado um boletim de ocorrência. Por conta do tumulto criado pelo oficial da PM penedense, a casa comercial ficou fechada por algumas horas. Ao reabrir, o proprietário havia deixado de ser um simples comerciante. Da prisão para o balcão, virou um ídolo da cidade. A inesperada repercussão deu um grau novo ao patenteado cardápio, cuja ordem é simples: “Só coma um sargento depois de beliscar um cabo e assim por diante”.

Por mais que soe mal, não há lei que impeça um restaurante de incluir no cardápio “Lula à milanesa”, “Coronel mal passado”, “Mito ao sugo”, “José ao Ribamar” e “Truta a esCollorpinho” como pratos de fundo. De sobremesa, nada melhor do que saborear um “Brigadeiro”. Por favor, comam o que quiserem, mas não confundam toco com pau ou o cabo do martelo com o colo do Marcelo. A pomada não pode ser diferente do mal causado. Ainda não tive oportunidade de visitar a lanchonete do bom Lira. Quando esse dia chegar, farei questão de degustar um tatu, tomando uma tota-tola e pensando em tu. Metáforas à parte, por sugestão de um tio muito querido, descobri que torresmo é a fruta mais gostosa do pomar do vizinho. Depois de um “Sargento ao ponto”, é claro.

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