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Supremicídio

Sangue que jorra entre togados deve ficar apenas no simbolismo

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Enquanto o sangue nobre das cabeças supostamente pensantes jorra do plenário para as escadarias de mármore do palácio do Supremo Tribunal Federal, os alicerces e os gabinetes onde se escondem as excelências vitalícias tremem nas bases. Tudo por causa da guerra supremicida estabelecida entre um ministro acusado e outro acusador. Um é suspeito de estar envolvido até o último fio de cabelo com o escandalosamente corrupto Daniel Vorcaro, o sujeito que, com seu banco Master, cutucou com vara curta todos os buracos de ratos do Planalto Central.

Por razões pra lá de conhecidas e, agora, definitivamente “confessadas”, o outro, assumindo um lado na campanha presidencial, decidiu, monocraticamente, jogar na lama mais fedorenta da planície seu principal adversário no pleno do STF e, por extensão, persona non grata de toda a família que ele, o acusador, defende. Como o dedo que aponta pertence à mesma mão que pede à Deus pela desgraça alheia, quem irá defendê-lo quando a mesma o tiver alcançado? Diz o ditado que responder à ofensa com ofensa é sinônimo de lavar a lama com lama.

Apenas como peru de fora, lamento pela falta de zelo dos ministros da Corte Suprema com a moral e os bons costumes internos. Os externos foram para o beleléu faz tempo. O mais curioso é o longo e mortal silêncio da presidência do Tribunal diante do estardalhaço de uma das excelências contra a outra. Entre estarrecido, impressionado e boquiaberto, o povo brasileiro cobra a intervenção dos céus, mais precisamente de Jesus Cristo, antes que o sangue deixe de ser apenas simbolismo de narrativas.

Como Pôncio Pilatos, o presidente do STF parece ter lavado, ensaboado e enxaguado as mãos para não tomar partido contra ou a favor daquele que, ilegal e arbitrariamente, se travestiu de salvador da pátria para crucificar qualquer um que se intrometer na caminhada presidencial de seu anjo da guarda. Para isso, o profeta do apocalipse judicial não se incomoda em, atropelando a Constituição Federal, tomar decisões atípicas ao Poder Judiciário.

Por exemplo, afastar um diretor-geral de uma instituição do Executivo exclusivamente por conta do incômodo que essa autoridade estaria lhe causando ou poderia lhe causar. Queriam ou não os apoiadores do novo crucificador da República, o gesto caracterizou uma clara intromissão de uma excelência no quintal da outra. E não há toga que justifique a arbitrariedade. Afastar um servidor público que não lhe deve subordinação ou continência é ilegal e ponto. Deliberadamente, por desespero ou excesso de confiança, a tal excelência parece querer ver o circo pegar fogo. Tudo indica que verá.

O problema é que, baseado no nítido desejo de catapultar uma candidatura à Presidência, dificilmente ele também se livrará de graves queimaduras de segundo e terceiro grau. Em nome da moral, dos bons costumes, da segurança jurídica e de modo a evitar que o sangue que não jorrou em 8 de janeiro de 2023 jorre agora, o acusado tem de ser afastado do STF. Como contrapartida, o acusador não tem mais qualquer condição de continuar relatando os inquéritos geradores da crise. Sobre o apoio que o acusador recebeu para defenestrar um incômodo policial, vale lembrar uma emblemática frase bíblica: “Os mártires penetram na arena de mãos dadas, mas normalmente são crucificados sozinhos”. Aguardemos!

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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