Sobradinho
Santana e o caso do buraco no muro
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Santana, para manter a tradição, foi trabalhar com o mau humor que todos na delegacia já conheciam. Mal entrou, fez questão de fazer bico e ir direto para cozinha, onde a Sissi acabara de passar o milagroso café que mantinha toda a equipe de plantão acordada.
— Tem café?
— Tem.
— Cadê? Cadê?
— Num tá vendo aí na sua frente, Santana?
— Hum! Me serve um pouco aí.
— O quê?
— Me serve um pouco aí! Tô mandando!
— Olha aqui, Santana! Me respeite, que sou capaz de colocar veneno no café pra te ver estrebuchando aqui no chão.
Diante da pequena gigante, o mal-humorado recuou. Serviu-se e foi trabalhar no balcão da delegacia, onde Ricky Ricardo (chefe da equipe), Pedrito e Evelina já estavam atendendo o público. O agente, assim que percebeu a pequena aglomeração na recepção, quis refugar. No entanto, Ricky Ricardo, ressabiado que era com a preguiça do colega, foi firme.
— Ei, Santana, trate de sentar a poupança na cadeira e começar a atender o povo.
Cara amarrada, lá foi o Santana. E os quatro agentes trabalharam tanto naquela manhã, que imaginaram que todos os cidadãos de Sobradinho teriam combinado para registrarem ocorrência policial justamente no mesmo horário. Por sorte, à tarde, foi uma calmaria e, à noite, quando o clima ameno parecia se firmar, eis que o telefone tocou.
Evelina, que estava mais próxima, atendeu. Ricky Ricardo e Pedrito ficaram atentos à conversa, enquanto Santana resolveu tirar o time de campo. Foi arrumar a cama na certeza de que aquele telefonema seria apenas alguém reclamando da música alta vinda da casa de algum vizinho sem-noção.
Que nada! Dona Carmita, a cidadã do outro lado da linha, parecia desesperada, pois teria visto um homem no quintal de sua residência. Desse modo, Ricky Ricardo chamou toda a equipe para ir ao local, antes que algo pior acontecesse à pobre senhora.
Para não deixar o balcão da delegacia vazio, Ricky Ricardo pediu para o escrivão Gilmarildo ficar atento à chegada de qualquer do povo que quisesse registrar boletim. E o delegado Rupereta, que acabara de retornar do jantar, ficou lhe fazendo companhia.
Assim que a viatura chegou ao local, perceberam que a residência possuía um muro alto. Dona Carmita, sentindo-se segura, abriu a porta e apontou para onde teria visto o bandido através da janela da sala. Ricky Ricardo, Evelina e Pedrito revistaram o local, enquanto Santana ficou perambulando pelo quintal de maneira displicente.
Evelina percebeu que havia um buraco no muro, mas insuficiente para passar uma pessoa. A policial perguntou o motivo daquela espaço aberto para a proprietária da casa, que respondeu que era para a Sonja sair e entrar.
— Sonja?
— É a minha gata.
Após vasculharem tudo, nem sinal do criminoso. Ricky Ricardo, Evelina e Pedrito conversaram com a vítima para tranquilizá-la. Nisso, lá foi o Santana, curioso como ele só, olhar o buraco no muro. Como se quisesse provar para si mesmo que aquela história estava mal contada, arma em punho, ele enfiou todo o braço no buraco até dar do lado da calçada.
— Dona Carmita, a senhora tem certeza de que a sua gata passa por aqui?
Antes que a mulher tivesse a chance de responder àquela bobagem, eis que o Santana sentiu alguém puxando a pistola de suas mãos. Em seguida, o ladrão gritou e se evadiu do local.
— Perdeu, gorducho!
Somente após quase duas semanas é que a arma foi encontrada, graças às investigações feitas em conjunto pela equipe do plantão e os agentes Daniel, Ana Luísa, Rogério e Alexandre, vulgo Vascão.
Quanto ao Santana, nem ele acreditava que um dia teria sua pistola de volta. Mesmo assim, não foi poupado de uma brincadeira feita pelo Gilmarildo.
— Santana, isso é pra você aprender a não colocar a mão no primeiro buraco que encontrar pela frente.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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