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Imbróglio

Santana, Pedrito e o peladão

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Moraes, 75 anos, ao sair do banho, displicentemente passou a toalha pelo corpo, deteve-se por alguns instantes nas partes íntimas, esfregou os parcos cabelos, sacudiu a cabeça e a água espirrou para todos os lados. Em seguida, toalha nos ombros, se dirigiu aos dois policiais, o Santana e o jovem Pedrito.

— Pois não, no que posso servi-los.

Santana, o mais incomodado com a situação, mandou que o sujeito se vestisse.

— E por quê?

— Porque você está pelado, ué!

— Pois é assim que gosto de ficar na minha casa.

— Mas ali tem uma senhora.

— E eu não sei?

— Então, vista-se!

— Ela é minha mulher, já está acostumada e posso garantir que até aprecia bastante.

Roseneide, a esposa, percebeu que era melhor intervir antes que a aquilo saísse do controle.

— Meu amor, coloque uma bermuda pelo menos. Desse jeito até eu fico envergonhada na frente desses senhores.

Moraes, o peladão, apesar de contrariado, acatou a sugestão da companheira, que foi buscar a roupa para o sujeito vestir, enquanto ele, pernas abertas, se esparramou na poltrona da sala.

— Pois o que vocês querem comigo?

Pedrito, o extremo oposto do Santana, era um poço de paciência.

— Bem, seu Moraes, precisamos que o senhor nos acompanhe até a delegacia.

— E pra quê? Não matei e não roubei.

— O senhor vai na condição de testemunha.

— Testemunha? Do quê?

— O senhor presenciou a briga entre seus vizinhos.

— Hum! Pois tenho cara de fofoqueiro? Não vou! Tenho mais o que fazer.

— Senhor, isso não é um convite, mas uma ordem emitida pelo delegado. O senhor não tem alternativa, precisa mesmo nos acompanhar até a delegacia.

Nisso, Roseneide retornou com uma bermuda e uma camisa e as entregou para o esposo, que, garboso, se ergueu e, com um sorriso nos lábios, se vestiu. Pedrito, então, perguntou educadamente:

— Podemos ir, seu Moraes?

O homem voltou a sorrir, olhou para a esposa, que perguntou se Larissa, uma das filhas, poderia acompanhá-lo.

— Não vejo problema, senhora. Ela está aqui?

— Sim. Vou chamá-la.

Já na viatura a caminho da delegacia, Pedrito ao volante, Santana ao seu lado, Moraes e Larissa no banco de trás, permaneciam calados. Foi então que o Santana quis saber quantos filhos o velho possuía. Todavia, antes que ele pudesse responder, a filha se apressou em dizer.

— Nove!

Moraes, então, retrucou:

— Doze!

Larissa, bastante exaltada, fez cara de brava e, voz firme, mostrou que não gostou:

— Pois eu conto apenas os filhos que o senhor teve com a minha mãe. Esses outros aí não sei e nem quero saber.

Moraes, sorriso de canto de boca, preferiu ficar calado, enquanto o Santana, quase inaudível, disse para o Pedrito:

— Eita, velho danado!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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