Sobradinho
Santana, Pedrito, o defunto e o Vick VapoRub
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Santana, o mais notório nó-cego da delegacia de Sobradinho, na capital do país, vez ou outra, era empurrado para trabalhar, ainda mais quando o plantão estava abarrotado de gente. E foi isso que aconteceu num domingo, pois o caos parecia fazer sala para os agentes, que não paravam de registrar ocorrências de todos os tipos.
A equipe de plantão do dia estava composta pelos seguintes policiais: os agentes Ricky Ricardo, Evelina, Pedrito, Santana, o escrivão Gilmarildo e o delegado Rupereta. Com exceção do preguiçoso, todos os demais se desdobravam para atender a população presente com a maior dedicação. Isso fora os telefones, que não paravam de tocar. E eis que, em um deles, era um anônimo que disse ter avistado um cadáver, em adiantado estado de putrefação, em um terreno baldio.
Ricky Ricardo, chefe da equipe, determinou que Pedrito e Santana fossem ao local, onde ficariam até a chegada da perícia e do Instituto Médico Legal (IML) para o recolhimento do corpo. E lá foram os dois policiais averiguar a situação.
Enquanto Pedrito dirigia, Santana quis se impor perante o novato, que mal havia completado um mês na polícia.
— E aí, novinho, já viu gente morta?
— Muitas vezes.
— Sério?
— Sim.
— Em velório?
— Santana, não gosto de ir a velórios, quer dizer, nunca fui a um pra saber. Mas é algo que não tenho vontade.
— Então, onde foi que você viu?
— Antes de dormir, um grupo de mortos me visita. Não sei quem são, pois não sou muito de conversar com quem não conheço, mas minha avó, que também recebia visitas desse povo do além, me dizia que era gente procurando conforto.
— Peraí! Tu tá me dizendo que vê fantasmas?
— Vovó preferia dizer abantesma, mas, no fundo, parece que é tudo a mesma coisa.
Em vez de assustar o novinho, Santana pareceu petrificado, ainda mais porque não percebeu o riso discreto do colega. Pedrito, parece, antes mesmo de receber a investida, já deu o troco no antigão. E a conversa poderia se prolongar, caso os policiais não tivessem chegado ao matagal onde estava o cadáver.
Pedrito e Santana desceram da viatura, caminharam alguns metros e logo avistaram o corpo de um homem, que parecia estar por ali há quase uma semana, pois estava tomado por larvas de varejeira. E, por azar, uma lufada de vento bateu exatamente naquele instante, fazendo com que o fedor fosse direto para as narinas dos agentes. Não deu outra, Pedrito sentiu engulhos repentinos, virou-se para o lado, justamente onde estava o Santana, e devolveu a macarronada nos sapatos do Santana.
— Poxa, Pedrito, olha pra onde vomita!
— Desculpa aí, Santana. Foi mal.
— Vá lá na viatura e pegue um frasco de Vick VapoRub e passe um pouco debaixo do nariz.
Pedrito obedeceu, enquanto o Santana ficou procurando alguma coisa que pudesse indicar crime. Não que ele entendesse do assunto, apesar de já estar na corporação há mais de duas décadas. Entretanto, precisava manter a postura de policial experiente diante do aprendiz.
Não tardou, Pedrito, que já havia passado um pouco da pomada para disfarçar o cheiro de podre, retornou e ficou observando o morto. Ao lado, estavam algumas cápsulas de munição, o que indicava que teria sido assassinado, já que não havia arma nas proximidades. Ele avisou o Santana, que notou lágrimas nos olhos do colega.
— Pedrito, esse aí era seu parente?
— Não. Por quê?
— Hum! E por que tu tá chorando?
— Não é choro, é alergia a esse Vick VapoRub.
A perícia chegou e, em seguida, o rabecão do IML, que recolheu o corpo. E, finalmente, Pedrito e Santana entraram na viatura para retornarem à delegacia. Foi aí que o Santana, percebendo que o companheiro havia começado a lacrimejar, falou para ele lavar o rosto para retirar o Vick VapoRub.
— Agora é choro mesmo, Santana.
— Choro?
— Sim.
— Mas você disse que aquele defunto não era seu parente.
— E não é mesmo.
— Então, Pedrito, por que está chorando?
— É que o macarrão que a Rafaela fez pra mim com tanto carinho estava tão gostoso.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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