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Sentimentos

Sapatinhos de toc toc

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

1.
O cara entrou no consultório e foi desabafando.

“Sonho quase todos os dias com o hotel. O hotel de meus pais, lá de minha infância. Sonhos de labirintos. Vivo e moro em hotéis; eu sou aquele hotel; ou melhor, doutora, sinto que tenho uma relação visceral com ele. Esses sonhos me fazem mais intenso, pessoa melhor. Esses sonhos me revelam claramente isso. Porém, neles, a imagem do hotel nunca está limpa, no foco. A frente do prédio é distorcida e o interior jamais está com a luz que eu gostaria para filmar. Nos sonhos, o hotel parece uma tripa estendida, sem fim. Ao final dos sonhos fico sempre com a impressão que ele me vem como uma lembrança distante, lá dos confins do universo. Tenho a certeza que faço parte dali, daquele lance, mas não consigo nunca encontrar as chaves, os códigos. Penso ouvir alguém chorando e dizendo que é por mim. Nos sonhos, fico tenso e jamais entendo tanta consideração. Corto os pulsos ao pensar que essas lágrimas são por minha causa. O hotel, sem dúvidas, envolve e dá sentido à vida que eu –por determinação ou destino segui- e é parte de meu ser. Ele me possui e eu a ele; sou parte dele, como os quartos, a cozinha, o salão de café e refeições, a entrada, a portaria. E a cidade também, cidade da qual nem me lembro o nome, mas sei que existiu e está lá. E assim eu sonho e sonho e sonho. Acordo atordoado e me pergunto: “Onde estou? Em que hotel? Em que lugar?”. A pergunta é besta, pois sei que estou em algum lugar fazendo mais uma reportagem com minha equipe e o lugar, qualquer que seja, será sempre UM lugar. Choro. Tomo banho e depois um ótimo café. E sigo para o trabalho. Esta pergunta “Onde estou?”, não faz sentido algum. Estou aqui e agora. Pronto, nada mais. Entro no carro de reportagens e ouço o Walter, motorista, perguntar: “Pronto velho? Vamos… Mais um dia!”. Respondo com o dedo positivo e seguimos pela estrada cheia de curvas e barrancos próximos. Estamos a quase dois mil e setecentos metros de altitude e o frio é intenso. Fixo os olhos nas faixas da estrada e posso ainda ouvir o choro de alguém bem baixinho lá longe, na memória. Alguém que ainda chora por mim. Sinto o vento frio no rosto e acho que “nasci com o fiantã pra Lua”, – como diria minha mãe-, pois alguém ainda chora por mim e continuo “na estrada”…chora por mim, mesmo que baixinho e quase imperceptível”.

2.
—Alô, pai? Você está aí?

—Oi, fala filha!

—Olha, tô precisando de uma “força”!

—Tá, o que está acontecendo?

—Pai? Pai?

A ligação caiu e vinha de um orelhão.

Por dias, fiquei procurando conexões e formas de chegar até a filha.

Cheguei.

3.
Por anos, viveu sem notícias.

A última que tive foi que a garota havia vendido tudo onde morava, se apaixonara por um cantor “de estrada” e seguia rumo à Patagônia. Ganhar a vida nas praças, nos bares e sonhar o sonho de viver livre. Olhei para o espelho na sala do hotel e disse ao cara -que não era mais eu- da minha confusão, “Não dá para entender nada mais, nada menos'”.

Naquela noite sonhou novamente.

O hotel-tripa lhe vinha em imagens como códigos de entradas e saídas para alguma conexão? Nada.

Novas imagens e nada.

Observou apenas pequenos apartamentos ao longo da imensa praia suja, gente porca e nojenta, que não sabe andar nem na areia e nem em calçadas. Vivia ali há um ano; num lugar onde ninguém sabe o que é o outro. Sabem o que é “o si próprio”. Gente pepinos em conserva esperando a morte. Suou de pavor ao perceber que o seu sonho era pesadelo. Acordou e beijou a companheira amada, que de pronto lhe acolheu:

___Que foi bem?

___Sonho pesado.

___Calma, é apenas sonho.

___Sim, mas está acontecendo!

___Vamos lá, deixe acontecer. Ainda é madrugada.

4.
Caralho, caiu ligação! – gritou a mulher.

Depois de alguns segundos, na noite fria do sul, ela pensou em cortar os pulsos, jogar-se no rio imenso que risca a cidade, mas ponderou a existência, o filho caçula, e voltou para casa. Casa que não era dela. Apenas mais um lugar de passagem.

Na manhã seguinte decidiu fazer cabelos de rastafári em si mesma.

No salão, o cantor entrou decidido a resolver a questão:

___O teu carro! O teu carro o cara! Você já encheu o meu saco!

O que se viu depois foram cenas de amor-desamor-rancor-violência.

—Alô, Pai? Pai…

—Sim, filha!…Ok! Venha para cá, fique com a gente.

Naquela tarde, o cara –como eu já lhe disse, doutora, não era mais eu!- chegou ao metrô da Estação Tietê em Sampa…era São Paulo…Sampa…com o coração aos pulos. A fiel companheira contara os cobres para as passagens de ônibus. Foi assim…horas de escárnio, malas imensas arrastadas e corridas para pegar o menino (filho da mulher, de apenas três anos, e neto do cara), no metrô.

Desceram a serra pela Emigrantes e chegaram, enfim, naquele balneário de aposentados na Baixada Santista. Só felicidade. Só que não. Chegaram e partiram no primeiro Zepellin que passaria poucos dias depois por ali. Nada tão triste que não possa piorar.

5.
Doutora, a senhora deve estar me perguntando, “Onde entram na história os Sapatinhos de Toc-Toc?”

Simples, doutora, uma questão apenas de tempo.

Estão lá atrás, na origem, no começo de tudo.

Noite quente na ilha, Floripa, SC.

O cara sonhou uns lances estranhos, como sempre.

Moravam num grande hotel, com sótão, chão de tacos de madeira. E ele ouvindo…..Toc-Toc…..Toc-Toc….e uma menina de três anos, com os sapatos da mãe, teimava em descer as escadas do segundo andar para o térreo e cantando:

“Eu não sei dizer nada por dizer então você FALA!”.

Acordei –não!-, o cara acordou suando frio e gritou para a companheira:

—Ela está aqui?

— Está sim, graças a Deus. Chegou bem!

Na mesma noite, o pai falou para a companheira, “Mas não temos uma filha/menina!”.
No que a companheira respondeu convicta, “Não, mas nossos filhos terão, com certeza! E ela andará com os sapatinhos de Toc-Toc…”.

6.
Pois tudo é mesmo assim, doutora:

“[…] estórias que se chegam e que se somem sem mais nem fumaça; se irão e que se voltam, que se ficam e depois se desaparecem ou que se acomodam em algum lugar. No mais, me contaram essa novelinha e eu não poderia perder o prazer de contá-la (mesmo que do meu jeito) pra doutora. Pode ser verdade ou mentira, não importa. O que importa é que existiu. Existe! Ficará apenas o barulhinho dos sapatinhos de Toc-Toc […] Doutora!!!: Em que hotel estou?”

7.
Naquela manhã, o céu amanheceu cinza feito olho de peixe morto.

O Zepellin nunca mais passou para salvá-lo, mas o homem seguiu esperançoso pelas estradas, feito um ovo chocado fora do tempo. Feito pássaros amassados pelo vento Sul da madrugada.

……………………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador de rabiscos, cadernos de vida e outros apetrechos capazes de trazerem o tempo e as emoções do vivido. Mora na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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