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O Lado B da Literatura

Schmidt, que criou para JK o famoso 50 anos em 5

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Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Divulgação

Sou suspeito para escrever sobre ele.

Da primeira vez que li um poema de Augusto Frederico Schmidt, num antigo suplemento do jornal O Globo chamado Prosa e Verso, havia uns 30 anos ou pouco mais de sua morte. E o poema me atravessou em cheio. Aludia-se, também, ao recente relançamento de sua obra poética num volume único que me interessou na hora, mas que só fui adquirir anos depois, volume que conservo com muito carinho até hoje.

Naquele tempo, ainda não fazia ideia da dimensão da vida e da obra daquele que fora chamado por seus detratores de “Poeta dos Mercadinhos”, uma vez que fundou no Brasil a primeira rede de supermercados, o Disco — Distribuidora de Comestíveis S.A.

Também desconhecia que, além de poeta, era excelente prosador.

Mas nunca o perdi de vista e, desde então, Augusto — sinto-me íntimo dele e quebrarei a regra de chamá-lo de Schmidt — ocupou para mim o Olimpo dos poetas.

Nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1906. Na infância, morou na Suíça, onde sua mãe andava às voltas com tratamentos contra a tuberculose. Mal melhorara o estado de saúde de Ana de Azevedo Schmidt, seu pai, Gustavo, teve uma crise de uremia e morreu repentinamente, deixando a mulher sozinha com três crianças, Augusto e suas irmãs Anita e Madalena. A tia-avó do futuro poeta acompanhou a família no périplo de volta ao Brasil, em plena Primeira Guerra Mundial, numa viagem cheia de medo e percalços.


No regresso, a família teve a proteção do avô materno, que fora guarda-livros na firma do avô paterno do poeta. Viviam modestamente, residindo no Engenho Novo, na Boca do Mato e, quando as condições melhoraram, em Botafogo. Augusto tinha poucos pendores para os estudos. Reprovado na tentativa de ingressar no Pedro II, foi enviado para o internato do Granbery, em Juiz de Fora, Minas Gerais, de onde voltou com poucos resultados. Entregou-se cedo à vida comercial: foi balconista em loja de tecidos, vendedor pracista de álcool e aguardente no atacado e, mais tarde, gerente de serraria em Nova Iguaçu, função que exercia quando desabou sobre ele seu primeiro livro de poemas.

Demonstrou sempre muito talento para os negócios, meio no qual se desenvolveu e tornou-se rico.

Chegou a ser diretor de companhia de seguros, tendo como executivos auxiliares os escritores Lúcio Cardoso e Geir Campos, ampliando depois seus empreendimentos para diversos ramos, como indústria química, distribuição de materiais de construção e peças automotivas, entre outros.

Não pertenceu a nenhum grupo em seu tempo de juventude, sendo hoje classificado como poeta da segunda geração do Modernismo.

Além de versos, fazia política e foi muito próximo de JK durante seu governo e depois dele. Como autor dos discursos presidenciais, atribui-se a Schmidt a criação do lema de governo “50 anos em 5”. No período, foi embaixador do Brasil perante a comunidade europeia e criou a Operação Pan-Americana, com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico dos países da América Latina.

Como jornalista, colaborou em vários jornais e revistas, escrevendo sobre história, política e crônica, sendo mais frequente nas páginas de A Noite e O Globo.

Augusto teve muitos amigos no meio literário e, segundo relatos, era sempre generoso e gentil com eles. Paulo Mendes Campos conta como foi vê-lo pela primeira vez. Depois de longa amizade epistolar, o escritor mineiro foi ao Rio para uma olimpíada universitária. Estando num bar com colegas, telefonou a Schmidt, que logo chegou a bordo de um automóvel fabuloso, vestindo um elegante terno azul com um cravo vermelho na lapela. Pediu ao garçom um complicado sorvete e discorreu por meia hora sobre futebol para o então jovem Campos e seus acompanhantes.

O mesmo escritor relata que, quando da visita de Pablo Neruda ao Brasil, em 1945, o grupo de amigos que o acompanhava pela noite do Rio incluía Schmidt. No final, o poeta convidou todos para que subissem ao seu apartamento, então num andar da Avenida Atlântica, em Copacabana, e lá explorassem sua variada adega. Campos se recorda de Schmidt comendo uma tangerina, perguntando a Neruda, que sorvia um fino vinho francês, se, no mundo de amanhã, seria dado a todos beber um vinho como aquele, ao que o chileno respondeu, com sua poderosa e firme voz: “Sí, ciertamente”.

Seu comportamento, às vezes, ia da tristeza ao riso em poucos minutos. Um antigo jornalista narra que, certa feita, Augusto o convidou para jogar num cassino em Teresópolis. Ao fim do jogo, o poeta quis visitar um parente que lá morava e se encontrava gravemente enfermo. O jornalista amigo permaneceu no carro durante os poucos minutos em que Augusto esteve no interior da casa. De lá, ele saiu desolado, chorando copiosamente diante do estado do doente. No caminho de volta ao Rio, o rádio começou a tocar a marcha carnavalesca que dizia “Nós, nós os carecas, dentre as mulheres somos maiorais…”. Ouvindo a música, Augusto se animou e riu muito, vindo o resto do caminho cantando os versos que ouvira na transmissão.

Se, no mundo dos negócios, tudo que Augusto tocava virava ouro, quando mexeu com livros a história não foi bem assim. Por curto período, teve uma editora com seu nome, responsável por lançar obras clássicas da literatura nacional, como Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Caminho para a distância, de Vinicius de Moraes, e Caetés, de Graciliano Ramos, além de publicar gente do nível de Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Ao ser apresentado a Vinicius por um amigo em comum para negociar a publicação da obra, Schmidt olhou-o de cima a baixo e disse:

— Mas é uma criança…

Vinicius ficou ofendido com a desconfiança, mas logo se formou entre ambos uma grande amizade que durou toda a vida. A empresa, porém, não durou muito — diz-se que o Brasil ainda não estava preparado para aqueles autores.

Casou-se com Yedda Lemos, sobrinha de Jayme Ovalle, em 1936. Em alguns poemas, demonstra a tristeza por não ter tido filhos, falando sobre o berço vazio e sobre os seus traços que ninguém herdou. Numa de suas crônicas, relata haver invejado uma cena vista de seu apartamento, observando a janela de um prédio vizinho. Do outro lado da rua, num andar mais baixo, o filho se preparava para dormir quando foi abraçar o pai. E ele sentiu que aquele homem era o mais rico dentre todos os homens, pois ganhava o afeto de seu filho.

Por muitos anos teve um galo de estimação. Um galo branco, enorme, hierático, misterioso, sempre a espreitar no escuro quando, antes da hora da alba, o homem de negócios misturado ao escritor já perambulava pelo apartamento na Paula Freitas, 20, em Copacabana, o último em que morou, pronto a escrever e a pensar o bem do Brasil, que desejava ver independente e desenvolvido.

Morreu triste com a situação do país, num abafado dia de verão, em 8 de fevereiro de 1965, e seu corpo está sepultado no Cemitério São João Batista. Pouco tempo depois, foi homenageado pelo governo da Guanabara, tendo o viaduto próximo ao Corte do Cantagalo recebido seu nome, bem como uma escola municipal no Engenho de Dentro.

É escassa a literatura existente sobre Augusto Frederico Schmidt nos dias de hoje, e seus livros estão todos esgotados. Penso que o mercado editorial brasileiro está devendo uma boa reedição de sua obra poética, que poderia ser negociada com a Fundação Yedda e Augusto Frederico Schmidt, detentora dos direitos. Sua poesia foi reunida pela última vez em volume único em 1996, justamente aquele que vi anunciado e só comprei anos mais tarde.

Uma biografia romanceada e algumas coletâneas de prosa foram lançadas há alguns anos, aproveitando o retorno de seu nome à mídia quando a Rede Globo lançou a minissérie JK, em 2006, na qual Schmidt foi belamente interpretado por Antônio Calloni. Só a vida do poeta daria um filme. O jornalista Waldir Ribeiro do Val, secretário literário de Augusto por alguns anos, é autor da excelente obra Vida e Poesia de Augusto Frederico Schmidt, de 2020.

Vários de seus admiradores continuam garantindo que ele não caia no esquecimento, mantendo vivos seus versos e levando para o futuro poemas como…

se os meus lábios de morto se abrissem
permitindo que a minha voz de morto despertasse
que as minhas mãos de morto retomassem a força perdida
poderia então partir
daquilo que fui
o grito de alerta
o grito de espanto
o apelo à vida
de quem se afogou
nas mesmas águas
em que o Deus da misericórdia caminhou tranquilo.

…………………….
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). Instagram: @prof.danielmarchi.

 

 

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