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Politicagem no gramado

Se Trump manda na Fifa, por que Xandão não revoga gols de Haaland?

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Artes/IA

Durante décadas, a Fifa repetiu como um mantra que futebol e política não se misturam. Jogou duro e suspendeu federações, puniu governos e exigiu autonomia absoluta das entidades nacionais sempre que enxergou qualquer sombra de ingerência estatal. Até que um pernóstico esnoba e impõe mudanças nas regras do jogo.

Isso mesmo. Bastou a Copa do Mundo ser disputada em solo americano para que o discurso  de austera moralidade perdesse a validade.

Folarin Balogun recebeu cartão vermelho. O árbitro brasileiro Raphael Clauso consultou o VAR e a expulsão foi confirmada. Pela lógica do futebol, pela tradição da Copa e pelo próprio regulamento disciplinar, o atacante cumpriria suspensão automática na partida seguinte.

Era simples, mas deixou de ser.

Após um telefonema do presidente Donald Trump ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, a punição foi suspensa. Balogun continua oficialmente expulso, mas está liberado para enfrentar a Bélgica nas oitavas de final, em partida programada para a noite desta segunda-feira, 6.

A mensagem enviada ao planeta é devastadora. Se um chefe de Estado pode pedir uma revisão disciplinar em favor da seleção anfitriã durante uma Copa do Mundo, quem garante que amanhã outro governante não faça o mesmo?

O problema não é Balogun. Nem sequer se discute se o cartão foi rigoroso ou injusto. Até porque, erros de arbitragem fazem parte da história do futebol. O que não está na regra é a impressão de que existe uma porta política capaz de reabrir processos já encerrados dentro das quatro linhas.

A Bélgica tem razões de sobra para sentir-se lesada. Os Diabos Vermelhos prepararam durante dias um plano de jogo sem o principal atacante americano. De repente, poucas horas antes da partida decisiva, descobrem que precisarão enfrentar justamente o jogador que deveria cumprir suspensão.

Mudou o adversário, o cenário e mudaram – algo inaceitável – as regras no meio do campeonato.

Não surpreende que a Federação Belga tenha reagido com indignação e buscado contestar a decisão. Mais do que defender seus interesses esportivos, tenta preservar o princípio elementar de igualdade entre todos os participantes.

A reação da Uefa foi igualmente dura. Ao classificar a decisão como um precedente perigoso, a entidade europeia verbalizou aquilo que milhões de torcedores passaram a questionar: até onde vai a independência da Fifa?

O episódio também lança uma sombra sobre Gianni Infantino. O presidente da Fifa cultiva há anos uma relação de proximidade com Donald Trump. Não que isso seja ilegal nisso; porém, dirigentes esportivos precisam parecer independentes tanto quanto precisam sê-lo. Mesmo porque, toda a credibilidade devida ao futebol depende dessa percepção.

Quando uma decisão disciplinar coincide com um pedido feito pelo presidente do país-sede, a dúvida nasce naturalmente. E, no esporte, a dúvida costuma ser tão destrutiva quanto o erro.

Se os Estados Unidos vencerem a Bélgica, sempre haverá quem pergunte se a classificação começou no gramado ou no telefone. Se perderem, permanecerá a sensação de que a Copa abriu um precedente capaz de contaminar futuras competições.

Se o futebol sobrevive até hoje, é porque suas regras são iguais para todos. Quando um cartão vermelho deixa de valer para alguns, corre-se o risco de transformar o regulamento numa peça de ficção. E, nesse dia, quem realmente sai expulsa de campo não é uma seleção, mas a credibilidade da própria Copa do Mundo.

Agora, cá pra nós, se Trump manda, por que Xandão também não entra em campo e revoga os gols de Haaland contra o Brasil?

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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