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Retrato falado

Segredo infantil é descrer na eterna adolescência

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Artes/IA

Como um menino que teima em não envelhecer, não me incomodo de, vez por outra, ser instado a revisitar o passado. É uma forma de irrigar as raízes do coração, avivar a alma e lembrar dos bons tempos em que, para erigir o cajado, não precisava de bengala, reza forte ou de drogas fortes e miraculosas. Como disse recentemente, a saudade é um retrato falado dos nossos melhores momentos. Repito sem medo de errar. Fui um bebê raiz, daqueles que usavam fraldas de pano presas com alfinete de gancho. Por isso, embora tenha certeza de que malandro é malandro e mané é mané, hoje me acho um malandro que se faz de mané, finge que é enganado, mas sempre acaba garantindo um bom acordo.

Por falar em malandragem, sou igual ao silêncio: como quieto e fico quieto. Como tenho duas sombras, normalmente uso a artimanha do acento agudo, que só se destaca escorado nas vogais. Às vezes me vejo como um carneiro, o quadrúpede que não tem barba para não ser visto como bode expiatório. Só às vezes porque, na verdade, sempre quis ter a malandragem dos gatos. Espertos como poucos, os bichanos têm bigodes, sete vidas, sete gatas, vivem em absoluto estado de ócio, comem de graça, moram nos telhados e são os principais indicadores de que as pessoas que não gostam deles voltarão como ratos na próxima vida.

Tenho uma vida só, mas dela só me tiram morto. É por isso que, também às vezes, me igualo à mulher do malandro, pois quanto mais apanho da vida mais sou apaixonado por ela. Tudo isso porque vivi intensamente a infância, a adolescência e a juventude. Faço parte da geração que ia para festas de caminhão e que discava o número do telefone girando o disco. Tomava banho de bacia, de balde, de bica ou de rio e, membro de uma família mediana, costumava me fartar de lascas de um pão gigante chamado à época de bengala.

Adoecer era para amadores. Os profissionais se curavam de qualquer mal só de olhar para as antigas injeções. Eram o terror da meninada. Fugia da monstruosa agulha, mas era pego no laço pelo Melhoral infantil quando tinha febre. Para frieira no pé, a solução era a milagrosa pomada Minâncora. Garganta ruim? Anapyon nela e não se falava mais no assunto. Usado pelas magricelas como eu, o Biotônico Fontoura não tinha contestação. O pior de todos atendia pelo pavoroso nome de Merthiolate, um santo remédio para joelho ou cotovelo ralados. Na dúvida, Benzetacil tem 1.200 mg.

Com ou sem febre, mesmo debaixo de temporal, as mães sempre arrumavam um jeito de nos mandar para a escola. A gente não reclamava. As TVs eram antigas e sem muitos recursos. A maioria só funcionava com o truque do Bombril na ponta da antena interna. A função das externas era dividida entre os familiares: um era obrigado a ficar no telhado girando a miserável enquanto os demais gritavam da sala: Tá bom! O que nos salvava era a programação, muito melhor do que a de hoje. Até os comerciais, também conhecidos por reclames, eram melhores do que os atuais. Por exemplo, custei a descobrir se os biscoitos Tostines eram fresquinhos porque vendiam mais ou se vendiam mais porque eram fresquinhos.

E o primeiro sutiã? Desse ninguém esquece. Hoje, minhas filhas e netos riem e choram quando ganham um iPhone. Eu ficava feliz quando ganhava uma daquelas canetas com quatro ou seis cores. Saudades da época em que os vizinhos se juntavam na calçada da rua e ficava até tarde conversando sobre o sexo dos anjos. Pedir aos pais a mão da namorada queria dizer somente a mão. Ai de nós se tentasse o pé ou coisas mais escondidas. Nos bailes, dançar agarradinho fazia a diferença. Se pudesse pedir qualquer coisa neste Natal, pediria para voltar à minha adolescência e juventude, época em que nada era dor, tudo era felicidade.

Foi o tempo em que minha inocência era minha maior virtude. Experiente e bem vivido, sei que nada voltará a ser como antes. No entanto, também sei que tudo pode ser melhor do que nunca foi. É uma pena não poder votar para ontem. E não posso por uma razão muito simplória: lá eu era outra pessoa. São as estradas da vida. Como sou um sujeito de sorte, para onde um dia irei não precisarei mais de estrada. Não acreditar na eterna adolescência é o meu segredo de infância. Envelhecer não é perder juventude, mas ganhar experiência, sabedoria e muitas histórias para contar. As verdadeiras histórias independem da idade. As mentirosas são coisas da idade.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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