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Tarefa impossível

Sem cão para usar, extremismo vai de gato angorá para evitar o Lula 4

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Depois de algumas noites mal dormidas, me pus a pensar no que dizem os “patriotas” mais radicais a respeito do presidente Luiz Inácio. Dia após dia pensando, concluí que eles têm alguma razão a respeito da conduta do mandatário petista. Afinal, quem não tem cão, caça com gato. Ou seja, aliando a necessidade de esconder o próprio rabo com a falta de argumentos lógicos, o melhor caminho são os adjetivos vulgares e jocosos. Como eles dizem, Lula pode ser ladrão, esquerdopata, brigão, leniente com as críticas de seus pares aos atuais governantes dos Estados Unidos e da Argentina e amigo dos amigos envolvidos com Daniel Vorcaro, entre eles o senador baiano Jaques Wagner.

Para os carentes de argumentações, o mais triste é perceber que o líder do petismo nacional é demasiadamente crítico à parcialidade de boa parte do Congresso Nacional com o tariFlávio e, principalmente, com a facilidade daquele partido pouco preocupado com o país em se locupletar com a malandragem política. Portanto, a dedução é simples: Lula da Silva é ruim para o bolsonarismo, péssimo para o gato angorá Donald Trump, terrível para os extremistas de oportunidade, isto é, de meia tigela, e o homem a ser batido por todos os que se acostumaram a bater palmas para maluco dançar. A ordem é evitar o Lula 4 a qualquer custo.

Segundo os inocentes úteis, também chamados de ingênuos de ocasião ou de loucos pelas vantagens prometidas pela direita e vetadas pela esquerda, Lula não é digno de se reeleger presidente da República para um quarto mandato. Antes de prosseguir com essa narrativa que nada tem a ver com um desagravo ao presidente, a pergunta que não quer calar é ainda mais simplória: E qual é a dignidade de Flávio Bolsonaro para a função? Basta cutucar os anais do governo anterior para se concluir que nenhuma. Com todo respeito que a pessoa do senador merece, o candidato da oposição opta pela ignorância de seu eleitorado mais fiel para conquistar votos.

O problema é a forma utilizada para tentar reduzir ou desfazer a diferença de qualidade entre ele e Lula. Em lugar de apresentar ideias e projetos de governo, Flávio Bolsonaro se vale da belicosidade senil de Trump e dos xingamentos de terceiros circenses para atacar o adversário. E faz isso porque sabe que o realmente se põe em mesa para se cacifar ao Palácio do Planalto é competência. E isso, por mais que tentemos minimizar, ele não. A carência é tão grande que seus antigos aliados de direita abandonaram a canoa antes que ela furasse de vez. Alguma coisa a ver com o ditado popular relativo à necessidade de sabermos quem nos convida para decidirmos se vale a pena acompanhá-lo?

A dificuldade de alguém para ser seu vice indica que a candidatura do partido de Valdemar Costa Neto mal entrou no forno e, por absoluta falta de fermento, já lembra um bolo solado, aquele que não cresce, fica pesado, denso e com o centro úmido. Aliás, Flávio Bolsonaro correu do centro para a esquerda e parou no meio da direita ao escolher o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice na chapa presidencial. Tido pelo clã como parlamentar íntegro, probo, do povão e acima do bem e do mal, Gaspar é acusado de fraude processual e de estupro de vulnerável. Nada demais para quem chama Lula de ladrão. Dito tudo isso, tenho a nítida impressão de que o pavor dos extremistas não é somente o fato de eles considerarem Lula ladrão.

Lula pode ter os predicados negativos, mas é democrata, nunca pensou em derrubar quem o venceu, jamais teve medo de cara feia, tampouco de direitistas que se borram de medo das pendulares ações de Donald Trump, e não fugiria das responsabilidades diante de um vírus letal como foi a Covid-19. Dizer que o Brasil ficará insustentável com Lula na Presidência significa assumir que o desejo quase sexual do bolsonarismo é capitular, ceder e transigir. No português mais escorreito, é desistir de ser brasileiro e se entregar aos anseios expansionistas do líder norte-americano. Eis a razão principal para que os apavorados “patriotas” queiram Luiz Inácio Lula da Silva longe da disputa. Os números da última pesquisa de intenção de votos mostram que a tarefa é quase impossível.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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