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Anedonia cósmica

Sem graça

Publicado

Autor/Imagem:
Renan Damázio - Francisco Filipino

Ofuscantes brilhos.
Ratos dançantes.
Uma angústia sem fim.
Fora da caixa e longe de conexão.
Não há nada dentro de mim.

Pétalas de sangue caem do céu.
Brilhos foscos na serra.
Há um povo vivendo.
Ao longe, se vê o morro dos macacos.
A guerra urbana perdura e afunda.

A música brega toca sem fim.
Eu não danço, como nunca mais.
Pirulitos no chão e cerveja volitando.
Gargalhadas irritantes praguejam.

Quero poder sentir amor.
Quero poder abraçar desconhecidos.
Quero poder me importar,
Mas eu não ligo.

Toca a última nota.
Caio fora.
Acendo um cigarro,
Que parece morte enrolada.

Sinto uma tentação.
Uma mulher na rua.
Papo vai, papo vem.
Vamos pra cama.

Um corpo dorme ao meu lado,
Cheiro de finalização.
Lágrima no meu olho.
Ah! Que solidão.

Um demônio puxa minha perna.
A mulher grita sem parar.
Um alarme toca por toda parte.
Minha indiferença faz morada.

Estou no quinto dos infernos.
Que chatice, na verdade.
Só fogo pra lá e pra cá.
Espetam o meu rabo.

Até o pós-morte não cativa.
Vou existindo assim sem alento.
Sou frio como pedra,
Em estado cósmico de não pertencimento.

………………………….
Renan Damázio (@renandamazio) é cronista e poeta, autor de Pássaros na Janela. Seus textos transitam entre a memória, o cotidiano e as delicadas zonas de silêncio da experiência humana. Colabora com o Café Literário, de Notibras.

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