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Brasil sem vergonha

Sem respeito do povo, roubar é o novo normal

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Originário do latim, o substantivo ladrão – às vezes adjetivo – tem vários sinônimos. Entretanto, o significado é sempre o mesmo: tirar alguma coisa de alguém ou de algum lugar. Rouba-se no Brasil e no mundo desde que o mundo é mundo. A diferença é que no Brasil roubar é literalmente uma religião. Escamotear é um bom negócio. Tanto que, além de livros bíblicos, bancados por pobres coitados de igrejas suspeitas, Ali Babá virou conto, filme e desenho animado e os assaltos ao trem pagador e ao Banco Central de Fortaleza geraram roteiros badaladíssimos em festivais de cinema brasileiro e sul-americanos.

Cerca de dois mil anos após o cristianismo, que tem como protagonista Jesus Cristo de Nazaré, o filho de Deus em encarnação humana, chegamos ao cúmulo de cunhar expressões para qualificar quem rouba mais ou menos. Por exemplo, tirar pirulito da boca de criança pode representar um furto fácil e de pequena monta. O mesmo não se deve dizer de ladrão de casaca ou de colarinho branco, que tira, por meio de indecentes propinas ou de emendas parlamentares, milhões da saúde, da merenda escolar, do saneamento básico, da seca do Nordeste, da agricultura e de onde mais eles puderem colocar a mão.

Não tenho orgulho algum de registrar que a conjugação do verbo roubar no Brasil é endêmica. Na verdade, já degenerou para pandemia, pior do que as de tifo, cólera, varíola, tuberculose, HIV e Covid-19, para as quais, ainda que demorada, há solução. Improvável é a descoberta de um antídoto contra a roubalheira dos políticos. Rouba-se nos quatros cantos do país, nas três esferas administrativas e em qualquer estrato social. No primeiro escalão, mensalmente recebem honrosas medalhas aqueles que parecem comemorar em nobres salões cobertos de flores e muitos canapés a condenação à morte de milhares de pessoas que não têm água, luz e insumos necessários à vida.

No grupo sem escalas, afana-se fios de cobre das redes elétrica e telefônica, tampas de bueiro, lâmpadas de postes públicos, ralos de esgoto e até dez reais de quem mal consegue ganhar para comer. Não há diferença entre os dois segmentos da ladroagem, mas não há dúvida de que o exemplo vem dos palácios, de algumas muitas excelências. Como eleitor desmemoriado, cidadão incapaz de reagir e contribuinte relapso, cada um a seu modo, somos todos coniventes com a endemia, com a impunidade dos governantes, com a cara de pau dos parlamentares, com a inércia e inoperância do sistema público de segurança e com a sempre justificada lentidão de nossos meritíssimos do Judiciário.

De forma didática, não existe corrupto dessa ou daquela legenda. Todas são passíveis de abrigar excelências honestas, desonestos, estelionatárias, vigaristas e trapaceiras. Do mesmo modo, não há diferença entre a velha e a nova política. É política e ponto. Mudou o modus operandi. Políticos antigos conquistavam votos, com recursos próprios ou dos partidos, distribuindo camisetas, dentaduras e óculos. Os novos tentam se perpetuar com distribuição de rendas, por meio de bolsas família, auxílio emergencial e similares, todos pagos exclusivamente com dinheiro dos nossos impostos.

Essa é a nova forma de fazer política, é o novo normal. Perdeu-se a vergonha. Definitivamente a honestidade entrou em profunda recessão, em rota de colisão com a seriedade e com o bem maior do ser humano: o caráter. É a decadência, o fundo do poço para o homem. Roubar atualmente é um verbo conjugado por aqueles que têm sede de ascensão familiar, social e hierárquica. É o mais alto grau da volúpia, o cúmulo da excitação, do prazer, do cabritismo e da incontinência. E, como já foi dito, ainda se ofendem quando são chamados de ladrões. Nos países asiáticos, o corrupto, após ser descoberto, é um potencial suicida. São delicadezas e singularidades que jamais alcançaremos.

No Brasil de ontem, de hoje e de sempre, roubar é pleonasmo. É o famoso chover no molhado. Difícil saber, principalmente entre os que detêm distintivos de autoridades, quem é honesto. Infelizmente, raras são as exceções. E quem é solidário ou realmente se preocupa com o sofrimento alheio? A maioria do povo sabe. Alguns fingem não saber. Em outubro, precisamos distinguir quem faz de quem não faz, quem pensa em somar e quem só pensa em dividir. A distinção será a prova definitiva de que os filósofos, astrólogos, espiritualistas e futurólogos estavam certos quando afirmaram que o coronavírus foi um “enviado” de Deus para mudar o mundo e as pessoas. Tomara!

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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