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Tese inventada

Sem ter o que comer, pobre comerá os ricos

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Um dos negócios mais rentáveis do mundo, a religião é uma fábrica de ricos e atualmente um poleiro de políticos do tipo falsos profetas. Embora de maioria católica, o Brasil é um desses celeiros. Pregadores evangélicos, com seguidores aqui, ali e acolá, os pastores Valdemiro Santiago, Silas Malafaia, Edir Macedo, R.R. Soares e Estevam Hernandes Filho fazem parte da lista de grandes fortunas nacionais. Ainda não descobri a razão pela qual Napoleão Bonaparte disse a amigos que a religião “é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos”. No entanto, aprendi com Santo Agostinho que o supérfluo dos ricos é propriedade dos pobres. Amém!

Sempre em nome de Deus, os “religiosos”, políticos, filósofos e intelectuais são os que mais se aproveitam da pobreza. A diferença é que os que dependem do voto dizem entender da vida de quem não tem nada, nos faz rir e, às vezes, nos provam que, além do dinheiro, não há divergência alguma entre uns e outros. Afinal, sem dinheiro todos seríamos ricos. Apesar de saber que jogar limpo é uma piada inventada pelos ricos para manter o resto da sociedade pobre, costumo dizer a meus pares que mais vale um pobre feliz do que 200 ricos tristes.

Não sei de onde tirei essa tese, principalmente porque sei desde menino que rico com medo é nervoso e pobre com medo é cagão. Na escola pública, durante a merenda das sextas-feiras, fui informado que essa história de que dinheiro não traz felicidade é um boato espalhado pelos ricos para que os lascados não tenham inveja deles. Não sou um desses, mas também sou rico em minhas misérias. Faço parte da comunidade que pensa mais em dinheiro do que os milionários: os pobres. Não consigo pensar em mais nada. Pelo menos tenho a mesma certeza filosófica de Jean-Jacques Rousseau.

Seguindo o teórico suíço, quando o povo não tiver mais nada para comer, ele comerá os ricos. Como comer significa ingerir, provar, experimentar, ninguém sabe ainda de que maneira será essa comilança. Graças a todos os deuses, não sou rico. Por isso, devo estar livre de morrer como o primeiro bispo do Brasil, Dom Pedro Fernandes Sardinha, literalmente comido pelos índios caetés, em 1556. Dizem que a pajelança começou de trás para a frente. Triste mesmo é quando o pobre que não tem nada perde tudo em um sinistro ou em uma enchente. O que ele não perde nunca é a patroa. Essa chora, corneia, chora de novo, corneia novamente, mas não larga o gajo.

Com o rico é diferente. Ele tem tudo e raramente perde alguma coisa. Já com relação à religião, a maioria dos endinheirados é ateu, pois leva chifre e não acredita. Talvez seja somente uma questão de informação, na medida em que o corno normalmente é sempre o último a saber. Nesse quesito, a grande diferença entre um e outro cidadão é a nomenclatura. Conforme o dicionário Houaiss, o rico traído é enganado. Já no Aurélio, o pobre traído é chifrudo mesmo. É como na hora do amor: um é garanhão, enquanto o outro não passa de um tarado.

Comecei falando de pastores ricos e cheguei na vida sexual desativada dos pobres ricos. O que tenho a ver com aqueles que só pensam em fornicar os pobres? Sei que o verbo correto seria outro, mas estou proibido de extrapolar. Também não irei falar hoje de política, tampouco dos políticos. Prefiro desopilar o fígado de modo mais light. O que não posso deixar é de adaptar uma frase antológica, cuja autoria ainda irei descobrir. Conforme a pérola vernacular, se alguém mata os politiqueiros – quase todos muito ricos -, eles viram estrume para as hortas pobres. O problema é que a maioria permanece solta e fazendo merda por onde passam.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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