Ruídos
Semana mostrou que 2026 começou a pesar antes da hora
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Na abertura da semana apontamos um país em modo de espera. Não era paralisia. Era cautela. O que os dias seguintes revelaram é que a espera tinha fundamento.
A economia entregou sinais mistos, mas objetivos. O dólar permaneceu próximo de R$ 5,19, no menor patamar em quase dois anos em alguns momentos da semana, beneficiado por fluxo externo e pelo ambiente internacional mais favorável a emergentes. Ao mesmo tempo, o Ibovespa renovou máximas históricas antes de recuar 1,02% em um dos pregões, refletindo o peso de uma Selic mantida em 15% e a percepção de que o ciclo de alívio monetário não virá na velocidade desejada pelo mercado.
Não houve euforia. Houve precificação.
O debate fiscal seguiu como pano de fundo. O Congresso acelerou a liberação de emendas em volume recorde para o período, movimento que ajuda a manter a base governista coesa, mas pressiona a narrativa de ajuste. O crédito rural mostrou retração relevante e a inadimplência no agro apareceu com crescimento expressivo, dado que ecoa a preocupação com 2026 como ano mais desafiador para o sistema financeiro.
O caso Banco Master deixou de ser apenas investigação financeira e ganhou densidade institucional. A redistribuição do processo no Supremo Tribunal Federal alterou o eixo político do episódio. A movimentação interna no Judiciário indica que o tema ultrapassou o campo técnico e passou a integrar o ambiente de tensão entre poderes.
E foi justamente nas Cortes superiores que a semana pesou mais.
No Superior Tribunal de Justiça, o afastamento do ministro Marco Buzzi após denúncia de assédio sexual colocou o tribunal sob escrutínio público. O caso não é apenas disciplinar. Ele expõe fragilidades internas e reacende o debate sobre teto remuneratório e privilégios, sobretudo quando números salariais vêm a público em meio a cobranças de austeridade.
No Supremo Tribunal Federal, o nome de Dias Toffoli voltou ao centro de uma disputa institucional envolvendo Polícia Federal e Ministério Público. Vazamentos, irritação entre ministros e expectativa de manifestação da Procuradoria-Geral da República criaram um ambiente de desconforto que não passa despercebido.
Quando as duas altas Cortes aparecem simultaneamente no noticiário por razões defensivas, algo está fora do eixo.
No campo político, 2026 deixou de ser horizonte distante. Pesquisa Quaest indicou aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro em eventual cenário de segundo turno. O dado não define nada, mas sinaliza polarização persistente e reduz o espaço para candidaturas alternativas que ainda tentam se organizar.
O debate sobre o fim da escala 6×1 avançou no Congresso, mobilizando bases sociais e setor empresarial. O governo equilibra discurso simpático à pauta trabalhista com cautela econômica. É um tema que atravessa a fronteira entre justiça social e impacto produtivo.
No exterior, a divulgação de novos documentos relacionados ao caso Epstein recolocou em pauta relações de poder e redes de influência. Nos Estados Unidos e na Europa, a tensão geopolítica seguiu elevada, com reflexos indiretos sobre energia, cadeias produtivas e percepção de risco global.
A semana não foi ruidosa. Foi densa.
O país não saiu do modo de espera. Mas a espera deixou de ser confortável. Instituições sob pressão, mercado seletivo, Congresso pragmático e eleições já projetando sombra longa sobre cada decisão.
2026 começou a pesar antes da hora.