Atos de valentia
Seu Ciço
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“Filho de Raimundo Nonato não leva desaforo pra casa”. Esse era o bordão repetido por Seu Ciço quando contava uma das histórias sobre seus atos de valentia lá em sua terra natal. Muitos diziam que eram bravatas, mas ele sempre as contava com toda a riqueza de detalhes e, se não fossem verdadeiras, eram ficções muito bem construídas, pois jamais alguém, por mais que tentasse, conseguia pegá-lo em contradição. De todo modo, como tinha fama de poucos amigos, por precaução, ninguém ousava desafiá-lo.
Cicero de Souza Arruda, oriundo de uma pequena cidade no interior do Ceará, chegou sozinho a São Paulo, já adulto, mas ainda jovem, em meados dos anos 1950, em um pau-de-arara, em busca de uma vida melhor. Conheceu a esposa por aqui, mas pouco mais de dez anos depois do casamento ela veio a falecer de uma doença não diagnosticada. A viuvez o tornou uma pessoa totalmente amarga e isolada, pois não tinha filhos e nem parentes por aqui.
Em razão de sua fisionomia sisuda, os moleques da rua tinham muito medo dele, a ponto de ao passarem em frente à casa e o virem no portão, apressavam o passo e baixavam a cabeça. Mas quando não o avistavam, não resistiam à tentação de o provocar, fazendo algazarra na frente da casa, ou tocando a campainha para depois correrem; e, claro, uma bola, invariavelmente, acabava caindo no quintal e, ocasionalmente, acertando alguma janela.
Em uma das vezes em que jogavam pelada bem em frente à residência do temido vizinho, o melhor lugar da rua, pois era a parte mais plana, aconteceu mais uma vez de a bola parar dentro do quintal. Um garoto franzino, mas muito ladino, cujo pai era o Peixe, outra figura folclórica do Bairro, por isso era conhecido pela alcunha de Peixinho, liderava o grupo, apesar de haver entre eles, meninos mais velhos e mais fortes, era também quem sempre assumia a arriscada missão e dessa vez não foi diferente, sem titubear, pulou o portão da casa, mas, por azar, antes que pudesse resgatar o objeto, o proprietário apareceu e o pegou em flagrante. Nesse momento, todos correram, deixando Peixinho sozinho para tentar contornar a situação constrangedora e perigosa.
Para sua surpresa, no entanto, Seu Ciço consentiu reaver a bola e ainda abriu o portão para ele não precisar pular de volta. Antes de sair, porém, o homem o deteve e puxou conversa, dizendo lembrar de sua infância no sertão, onde também gostava de jogar bola com os amigos. Peixinho não tinha maturidade para verbalizar o sentimento provocado por aquela situação, mas intuiu que, no fundo, o nordestino mal-encarado, não era mau sujeito, mas muito solitário, isso sim, e até sentiu pena dele.
Ainda admirado com aquela experiência inusitada, ao reencontrar seus amigos, contou o sucedido e apesar da incredulidade de todos, consideraram a possibilidade de mudar seu comportamento em relação ao vizinho carrancudo. E assim o fizeram, passando a cumprimentá-lo e até puxavam assunto. Com o tempo, os contatos entre ambos os lados foram ficando cada vez mais descontraídos e frequentes. Se reuniam em frente ao portão da casa para ouvir suas histórias e ele até chegava a sorrir, um leve sorriso nostálgico, ao lembrar do passado feliz.
A maior parte dos casos era sobre as reminiscências da infância no interior do Ceará e a interessada plateia ouvia com atenção; de como enfrentou um carcará para salvar uma cabrita quase capturara pela águia do sertão, de como subiu para apanhar caju em um pé onde havia uma caixa de marimbondos, de sua técnica para apanhar curimatã sem anzol no açude da região onde morava, entre centenas de outras façanhas.
Certo dia, no entanto, deixou a molecada de cabelos em pé ao narrar a história de um vaqueiro metido a valentão que andava por lá, de bar em bar, arrumando confusão com todo mundo, seu nome era Ladislau e ao encontrar o moleque Ciço sozinho no caminho do armazém, indo fazer compras para a mãe, não perdeu a oportunidade de lhe dar uns cascudos em represália às inúmeras traquinagens aprontadas a ele pela turma da qual o menino Ciço fazia parte.
Ao voltar para a casa, vendo a mãe ocupada com os afazeres na cozinha, furtivamente entrou no quarto dos pais e sobre o guarda-roupas, em uma caixa empoeirada, em meio a um monte de papéis, fotos e outros objetos de pouca utilidade, apanhou a arma. Correu para uma trilha nas proximidades, caminho obrigatório de Ladislau, atocaiou-se no mato e esperou pacientemente. Ǫuando avistou o baderneiro, sem vacilar, apontou a arma e com um tiro certeiro atingiu a testa de seu agressor que caiu se esvaindo em sangue.
Muito assustado, mas, ao mesmo tempo, orgulhoso e feliz por sua vingança, correu de volta à casa, recolocou a arma no lugar, deitou-se na cama, chamou a mãe se dizendo doente. Durante vários dias, enquanto o assassinato do brigão repercutia no lugarejo, Ciço não saiu debaixo das cobertas. Passado esse tempo, na ausência de testemunhas, nenhum suspeito foi identificado e o caso esfriou, ele, então, pode respirar aliviado, sem qualquer resquício de remorso, ao contrário, considerava-se um benfeitor da comunidade. Foi nesse dia que cunhou seu lema: “filho de Raimundo Nonato não leva desaforo pra casa!”
Peixinho e seus colegas de aventuras, ainda chocados com a história que acabavam de ouvir, não podiam suspeitar do que ainda lhes reservava aquele mesmo dia. No início da noite, como sempre, o, agora, amigo da turma, foi até a padaria próxima para comprar pão e leite, pois não tinha o costume de jantar, em vez disso preparava um café reforçado antes de se recolher para uma noite de sono.
Normalmente se demorava um pouco por lá ao encontrar alguns parceiros de copo os acompanhando em uma cachacinha e conversando sobre futilidades e assuntos sérios, como futebol, torcedor fanático do Fortaleza que era. Naquele dia, contudo, voltou rapidamente, apagou todas as luzes, normalmente acesas até bem mais tarde, e, aparentemente, foi dormir.
Aproximadamente uns 30 a 40 minutos após isso, ouve-se na rua um grande rumor e luzes freneticamente piscantes. Uma, duas, três e logo quatro viaturas de polícia com suas sirenes ligadas, estacionam à frente da casa; de dentro saltam uns dez ou mais policiais, pulam o muro e, esmurrando a porta, começam a chamar em voz alta:
– Senhor Cícero! É a polícia! A casa está cercada! O senhor é suspeito de um assassinato! Vamos conduzi-lo até a delegacia para prestar depoimento.
Um mês depois o vizinho ainda não havia retornado. Dizem pelo bairro, ter assumido o crime. Segundo consta, naquele dia ocorreu um desentendimento na padaria entre ele e um dos homens bebendo ao redor do balcão. Não era a primeira vez que se estranhavam. A discussão escalou e apanhando uma grande faca por sobre o balcão do estabelecimento, golpeou o sujeito no abdome. Ainda de acordo com os relatos, ao ouvir a confissão, o delegado perguntou a ele porque havia feito aquilo. Ao que Seu Ciço respondeu:
– Filho de Raimundo Nonato nunca levou desaforo para casa!