Gioacchino Pastore
Seu Joaquim, o avô paterno do meu primo
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Seu Joaquim era o avô paterno do meu primo. Avô materno não tínhamos, pois nossas mães eram irmãs e o pai delas havia falecido anos antes de nascermos. Eu tinha avô paterno, porém era muito pequeno quando ele foi diagnosticado com Alzheimer, naquele tempo não se usava esse nome, se dizia simplesmente que os idosos com demência eram “caducos”; o pai do meu pai “caducou” relativamente cedo e não pude usufruir da companhia dele como normalmente os netos esperam.
A bem da verdade e para fazer justiça a ele, Seu João Baptista havia sido, na juventude e quando adulto, uma pessoa notável e, mesmo com a doença, continuava sendo uma figura interessante; cheio de histórias para contar. Mas em outro momento falo sobre ele, hoje o protagonista não é meu avô, mas sim o avô do meu primo.
De todo modo, o pai de meu pai não tinha condições de passear nos parques e praças, andar de bicicleta, jogar bola, coisas que Seu Joaquim fazia com a gente, e, assim, ele me adotou como mais um neto; em alguns momentos, até parecia ser eu o preferido em detrimento do meu primo, provocando nele crises de ciúme.
Nasceu na Itália em fins do Século XIX e veio para o Brasil, ainda criança, numa daquelas levas de imigrantes europeus que se espalharam principalmente pelo Sudeste e Sul do país. Era um ser humano maravilhoso, sempre muito bem- humorado e, quando estava com a gente, parecíamos três e não dois moleques acompanhados por um senhor idoso.
Reinaldo, meu primo, e eu tínhamos praticamente a mesma idade, eu mais velho menos de dois meses. A época que mais me traz recordações é de quando tínhamos pouco mais de 11 anos, ele havia perdido a mãe recentemente, tendo ela falecido aos 40 anos, após uma cirurgia para tentar corrigir uma insuficiência congênita em uma válvula do coração, por essa razão, o papel do avô se tornou ainda mais marcante, pois a diversão proporcionada por ele fazia desviar, por alguns momentos, os pensamentos do neto de sua tragédia pessoal.
Uma das peripécias mais divertidas e, porque não dizer, arriscadas, da qual nunca vou me esquecer, foi quando em um passeio de bicicleta pelo Horto Florestal, a um dado momento, seu Joaquim tira do bolso um anzol e uma linha, coloca como isca um pedaço de pão e, chegando próximo à margem do lago que existe no local, abaixa-se discretamente para não ser pego em flagrante por nenhum dos guardas do parque, pois, evidentemente, a prática era proibida.
Sob nossos olhares admirados, pesca uma dúzia, ou um pouco mais, de lambaris, acondiciona em um saco plástico com um pouco de água e em seguida coloca em uma sacola; rapidamente montamos em nossas bicicletas e vamos embora. A casa dele era bem próxima e logo chegamos lá com os peixes ainda bem fresquinhos. Dona Aída, sua esposa, também italiana vinda para o Brasil no início do Século XX, o conheceu em 1917, quando ambos trabalhavam em uma indústria no bairro do Brás; preparou os lambaris e tivemos uma deliciosa refeição.
Além de todas as brincadeiras e traquinagens que fazíamos com o personagem central desse conto, ele nos ensinava várias coisas como jogos de carteado, Truco e diversos tipos de Paciência e jogávamos Dominó, mas o que mais gostávamos era de suas histórias, em especial as do tempo em que serviu na Primeira Guerra Mundial nas fileiras italianas após a ruptura com a Tríplice Aliança (Alemanha e Império Austro-húngaro) e da maneira involuntária como, em 1915, ele e centenas de outros jovens, oriundos daquele país, foram alistados.
Contava que recebeu uma correspondência do Consulado o convidando para uma festa em homenagem aos imigrantes italianos para o Brasil. O evento seria em um navio de bandeira italiana atracado no Porto de Santos. Lá chegando foi servido um jantar fartamente regado a vinho a ponto de todos se embebedarem e caírem adormecidos, quando acordaram, após algumas horas, estavam em alto mar e foram informados sobre o verdadeiro objetivo do “convite”, na verdade, armadilha.
Outra narração despertava nosso interesse, embora com um certo desconforto em imaginar a situação, era sobre as batalhas durante o inverno em que as trincheiras acumulavam neve até o meio das canelas e às vezes até os joelhos, congelando as pernas e os pés dos soldados. Ǫuando a nevasca cessava e a neve derretia, eles precisavam esperar os pés aquecerem para, somente depois, tirarem as botas, pois, do contrário, perderiam os dedos que, congelados, ficariam presos dentro dos calçados.
Certo dia recebi um recado do Reinaldo para irmos até a casa do avô, pois ele tinha uma coisa importante para nos mostrar. Chegando lá ele buscou no armário um livro antigo e amarelado, orgulhoso e emocionado disse ter recebido há poucos dias de um amigo que lutou ao lado dele na guerra. O grosso volume continha centenas de fotos e em uma delas via-se um jovem com o uniforme do exército italiano, capacete e marchando com um fuzil nas mãos. Abaixo a legenda: Gioacchino Pastore.