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Estado de espírito

Seu Pinto morreu e nem amálgama resolveu

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Celeiros de grandes manifestações artísticas, culturais e sociais, as periferias das grandes cidades, notadamente a do Rio de Janeiro, são fábricas de craques de futebol, de sambistas, de mestres de gafieira, de dançarinos multimídias e, lamentavelmente, de reis do crime. No mesmo patamar dos bailes funk e das feijoadas com pagode, os velórios na ex-Cidade Maravilhosa são motes para longas e inesquecíveis festas. Depois de 12, 13 horas de conversê, paquera, beberagem, piadas em profusão e muita, muita cachaça, o sono é profundo.

O defunto só é lembrado quando o padre ensaia o Pai Nosso ou quando o coveiro toca o sino que indica a hora de adentrar a morada final. E aí que a turma da velação procura saber o nome do morto. Lá do fundo da capela alguém grita: É seu Pinto. Ele passou dessa para melhor por conta de um mal súbito. Mal súbito? Deixa pra lá. Morreu e agora vamos enterrar o Pinto e cuidar de dona Pinta. Quem se habilita? Como supostamente se trata de uma balzaquiana quase donzela, há sempre unanimidade entre os vivos.

Dizem as más línguas que a disputa normalmente fica entre os dois mais encorpados nativos do bairro. A bem da verdade, o encorpamento é simbolicamente físico, pois viuvez feminina é um estado de espírito. Por isso, a necessidade de pensar no futuro obriga a moçoila de preto a esquecer bonitezas e buscar a fusão perfeita entre as coisas, isto é, o amálgama, que é a combinação da falta disso com a ausência daquilo que dá liga.

O problema é quando a comunidade inteira descobre que os dois chegavam juntos bem antes do seu Pinto desviver. Enterraram o Pinto, mas as maledicências, geralmente causadas pela inveja, não cessam. Eu, por exemplo, não gosto de fofoca, mas não consigo guardar segredo. Dizer que dona Pinta ciscava de costas e de frente talvez seja um franciscano pleonasmo. Não interessa. Importante é que a viúva saiba entrar para dentro e sair para fora. Embora redundância rime com abundância, devo dizer que, no caso em questão, o chifre trocado não dói.

Aliás, vale reiterar que essa coisa antiga chamada chifre é somente uma coisa que colocam em nossas cabeças. Engana-se quem acredita que aquele calombo que nasce e cresce na testa dos homens – eventualmente no das mulheres – é coisa do modernismo. E não é liberdade poética. Os cornos são originários dos tempos dos imperadores. Quem nunca leu a história do ditador Júlio César e de sua segunda mulher, Pompéia Sula, aquela a quem nunca bastou ser honesta. Ela tinha de parecer honesta. Tudo porque o louco e apaixonado Publius Clodius, fantasiado de tocadora de lira, clandestinamente entrou na festa que Pompéia havia promovido apenas para mulheres.

Conta a história que nada disso aconteceu. Entretanto, como todo castigo para corno é pouco, o tirano Júlio César pediu o divórcio, sob a alegação de que “a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”. Desconheço qualquer safadeza surubática de Nero, o hétero, mas, nos bastidores do Congresso Nacional, corre à boca pequena que o caçador Júlio César, enquanto marido de Calpúrnia, pegava a belezura da Cleópatra, ex-mulher de Ptolomeu XIII. Eita que balbúrdia das boas. Mas o que tem a Roma antiga com a profusão de sons e de artistas das periferias das grandes cidades?

Tudo a ver. São as periferias que também colaboram com a produção do que temos de pior em nossa sociedade: os políticos, filhotes sarnentos de nossa apodrecida política. Do mesmo modo que jamais consegui atinar para aquela questão ilógica sobre o ovo e a galinha, também nunca procurei saber a respeito da velocidade do cuspe, muito menos sobre quem veio primeiro: as prostitutas, as carpideiras ou os políticos. Nunca soube dos ovos do Pinto. Na verdade, nunca quis saber. Sei apenas que minha narrativa está chegando ao fim e que ainda não encontrei um prenome para o finado e enrijecido Pinto.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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