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Negacionista da corrupção

Sigilo de 100 anos de Bolsonaro vira um Segredo de Polichinelo

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Mathuzalém Júnior* - Foto Reprodução

Leitor assíduo e diário de pelo menos dois jornais impressos e de dois ou três sites jornalísticos, além de algumas bulas de remédios, gosto muito de ser surpreendido por bons textos, principalmente por opiniões saídas do útero da imaginação. Dia desses, me chamou atenção uma carta assinada pelo brasiliense Vital Ramos de Vasconcelos sobre um assunto que certamente incomoda 11 entre dez brasileiros. Refiro-me ao sigilo de 100 anos em tudo que signifique incômodo pessoal, político, familiar ou sexual para o cidadão Jair Messias Bolsonaro, casual e supostamente o presidente em exercício do Brasil acima de tudo e de Deus acima de todos. A menos de dez dias da eleição presidencial, não seria hora de clarear a caixa preta do governo? O momento de mostrar probidade é este.

O segredo de informações por 100 anos está previsto em lei e já foi acionado nove vezes desde o início do governo. Antes de sua excelência, o mito, apenas a presidenta Dilma Rousseff havia se utilizado desse nefasto recurso. Como Dilma faz parte de um longínquo passado e já caiu no esquecimento, o registro é a recorrência do mecanismo. Difícil acreditar que um homem público e que se apresenta como terrivelmente honesto e acima do bem e do mal tenha tanto o que esconder. Pode ser que alguns desses assuntos sejam apenas baboseiras. No entanto, o Brasil inteiro sabe que a maioria é de relevância e, portanto, fundamentais para que a sociedade saiba até onde chega a propalada honestidade do mandatário.

Apesar de suas ações negacionistas terem gerado quase 700 mil mortes durante a pandemia de Covid-19, não informar se tomou ou não a vacina não causa prejuízos para o povo. Seria somente um gesto elegante e comprovador de sua preocupação com a doença. Esconder o cartão é a prova de que ele fez pouco caso do vírus, das consequências e de quem morreu. Tanto que não visitou um hospital de campanha, jamais se dirigiu às famílias enlutadas e nunca prestou condolências a nenhum brasileiro alcançado pela Covid. Literalmente banalizou, desprezou e debochou de seus compatriotas supostamente porque eles deixaram de ser eleitores. É o dito cujo que tenta um novo mandato. Para que?

Tudo bem que esconder o cartão de vacina não é relevante. Mas camuflar o acesso dos filhos e o registro de entradas e saída de pastores evangélicos no Palácio do Planalto, sede do Executivo federal, é grave. Pior é engavetar por um século o acesso às emendas do orçamento secreto, ao cartão corporativo, ao processo conhecido por “rachadinhas” do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ao processo interno do Exército contra o general e ex-ministro Eduardo Pazuello pela participação, em maio de 2021, em um ato político ao lado do presidente. Por que se agarrar ao segredo centenário de seus atos? O que um mandatário tão honesto pode temer ao transformar em sigilo todo tipo de denúncia contra ele?

Talvez sejam mesmo temas espinhosos. Todavia, um homem público tem obrigação de conhecer seus limites e o dever de tornar claras todas as suas ações. Abdicar desses princípios é concordar com os poetas do absurdo, para os quais pior do que as catástrofes são 100 anos de escuridão. Sem medo de errar, afirmo que Bolsonaro entrará para a história como o pior presidente que o Brasil já teve. Ele pode até se reeleger, mas, se isso acontecer, o título será seu por mais quatro anos. Lamentável, mas só em 100 anos saberemos o que ocorre de ruim ou de mais ou menos no governo terrivelmente honesto. Ou seja, morremos todos sem saber se há realmente algo de podre no reino do tenente presidente.

De concreto, somente as justificativas de “proteção à vida do presidente” e “falta de interesse público” para proteger os segredos inconfessáveis do governo Bolsonaro, cuja trajetória é marcada por assuntos pra lá de polêmicos. Será que a intenção é varrer a sujeira para debaixo do tapete? Obviamente que em 2122 o tapete persa ou paraguaio terá engolido qualquer informação comprometedora. Nada, porém, consegue sair do radar daqueles estudantes caxias que enterram cartas e documentos para serem lidos daqui a 100 anos. É só uma ilação, mas, como o pau que dá em Chico dá em Francisco, não será surpresa se em um desses achados estiver escrito “Fora Bolsonaro”. Na prática, o inconfessável sigilo lembra o Segredo de Polichinelo, pois, embora escondida, todos os brasileiros sabem que tipo de informação está contida na caixa preta oficial.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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