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Guerreira

Simplesmente Pagu

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Divulgação

“Ela via na arte uma ferramenta poderosa na luta de classes. Integrou o órgão secreto da Internacional Comunista, mas rechaçou dogmatismos. Retratou a altivez das mulheres operárias. Fundou jornais. Foi presa. E defendeu:
luta política e cultura são indissociáveis”
*(Walnice Nogueira Galvão. site Outras Palavras 2026)

Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu. Mulher extraordinária e visionária.

Nasceu em 09 de junho e 1910 e morreu em 12 de dezembro de 1962, Patrícia Galvão/Pagu, foi uma escritora, cartunista, jornalista e militante comunista brasileira.

Ser PAGU significa incorporar o espírito de liberdade, rebeldia e inconformismo crítica das mulheres eternas construtoras da História. É sinônimo de ser uma guerreira vanguardista, que quebra padrões, luta por ideais e desafia o machismo ao longo da primeira metade do Século XX. Pagu não deixou pedra sobre pedra.

Paulista do interior, foi criada na capital, para onde seus pais se transferiram quando ela tinha 2 anos. Estudou em Escola Pública no bairro da Liberdade e depois formou-se “normalista” na Escola Normal Caetano de Campos, na Praça da República (Centro de São Paulo) e também assistiu aulas no Conservatório Musical.

O ENCONTRO COM OS MODERNISTAS

Por este tempo, Pagu foi apresentada por Raul Bopp a Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, figuras de proa do Modernismo. Com sua formosura juvenil, charme e comportamento inconvencional, Pagu abalou o cenário modernista; a exuberância da cabeleira, a boca polpuda, os olhos derramados – registrados no célebre poema que lhe dedicou Raul Bopp, “Coco Pagu” – tornaram-se sua marca registrada.

Em 1929, Pagu e o escritor/agitador cultural Oswald de Andrade passaram a viver juntos. Num gesto típico de escândalo modernista, celebrariam sua união numa cerimônia de casamento ao pé do jazigo da família de Oswald, no Cemitério da Consolação. Dessa união, com cinco anos de duração, nasceu um filho, Rudá Poronominare Galvão de Andrade. Pagu participaria intensamente da fase antropofágica do Modernismo e prestaria colaboração à Revista de Antropofagia com desenhos, contos e poemas.

PÉ NA ESTRADA E DESAFIOS

No ano seguinte, ela viajou de navio a Buenos Aires para participar de um recital e tentar encontrar Luiz Carlos Prestes, que ali vivia em exílio, mas não o encontrou. Entretanto, durante o percurso, fez amizade com Zorrilla de San Martin e travou contatos na área literária com o grupo de escritores da revista Sur: Jorge Luis Borges, Victoria Ocampo, Eduardo Mallea. Ali, Pagu encontra o marxismo.

Já em São Paulo, Astrojildo Pereira, intelectual fundador do PCB, procura o casal. Pagu, cativada, passou a traduzir panfletos a seu pedido, declarando com entusiasmo dedicar-se doravante à “causa dos oprimidos”. Com a crise econômica de 1929, abriu-se passo a uma reconfiguração de forças, com radicalização de intelectuais, à direita e à esquerda. Encerrava-se a década de eclosão e fastígio do Modernismo, baseada numa fusão de vanguardistas com mecenas cafeicultores. Nesse processo, em 1931 Patrícia e Oswald filiaram-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e passaram a militar pela revolução.

PCB E AS PRIMEIRAS PRISÕES

Em 1931, o casal fundou o tabloide O Homem do Povo, que duraria apenas oito números. No mesmo ano, Pagu e Oswald decidiram embarcar para Montevidéu, onde finalmente se encontraram com Luiz Carlos Prestes. Juntos, passariam dias conversando, tendo formado uma forte conexão. Pagu data deste encontro sua conversão definitiva à luta política socialista, tal o poder de convicção de Prestes. Sentindo-se ignorante, daí em diante Pagu procurou estudar, e mergulhou na militância.

Sua primeira prisão se deu nesse ano de 1931, em Santos – maior porto do Brasil, escoadouro da riqueza principal de então, o café –, quando participou de uma greve após ser designada para militar na organização do Socorro Vermelho. Logo solta, trabalhando como operária, discursou no palanque do comício de uma greve de estivadores e foi novamente presa quando acudia um manifestante baleado pela polícia. É deste evento que data sua reputação de ser a primeira mulher presa política no Brasil. Contudo, a reação do PCB diante do escândalo armado pela mídia foi negativa: a origem pequeno-burguesa de Pagu seria atacada num manifesto que desautorizava sua atuação – como agitadora individual – no palanque do comício.

ANOS DE MILITÂNCIA OPERÁRIA E RECLUSÃO

O período que se segue é de dificuldades para Pagu e Oswald. Mudam-se para o Rio de Janeiro e Pagu passa a trabalhar em indústrias como operária e militando na organização dos trabalhadores com prioridade às mulheres.

Pagu sempre foi perseguida pela polícia do governo e também dentro do próprio PCB. Sem espaço, Pagu foi trabalhar de lanterninha num cinema da Cinelândia, passando a agir na organização de um sindicato dos trabalhadores de cinema e casas de diversão. Descoberta pelos patrões, foi despedida, indo então trabalhar como operária numa metalúrgica. Corria o ano de 1932 e o PCB ordenou que voltasse a São Paulo e passasse a militar no meio intelectual. Era o ano do movimento separatista de São Paulo e Pagu e Oswald receberam ordem de prisão e passaram à clandestinidade. Neste contexto, o partido – que então vivia sua fase “obreirista” (de valorização de operários na direção, em detrimento de intelectuais) – abriu uma campanha contra os “intelectuais pequeno-burgueses”, gerando a indignação de Pagu, que recebe um “bilhete de afastamento”. Recolhe-se então para escrever, refletindo sobre sua experiência como trabalhadora proletária. Em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo, publicou Parque industrial: romance proletário, obra ao mesmo tempo comunista, modernista e feminista. O casal mudou novamente para o Rio e Pagu retomou o desejo de correr o mundo.

ESTADOS UNIDOS, JAPÃO, CHINA, RÚSSIA E EUROPA

Durante 1933 e 1934), visitou os Estados Unidos, Japão, China e Rússia, além de países da Europa. Foi correspondente do Correio da Manhã e o Diário de Notícias, ambos do Rio, e para o Diário da Noite, de São Paulo. Nesse itinerário, teve contato com surrealistas franceses e ficou admirada com as realizações da Revolução Russa, apesar da miséria que também observou. Uma vez em Paris, Pagu mergulhou no ativismo político, tratando de afiliar-se ao Partido Comunista Francês. Entrou assim em contato com André Breton, Paul Éluard, René Crevel, Louis Aragon, Perét do grupo surrealista. Porém, identificada pela repressão, acabaria por ser presa e deportada ao Brasil, graças à intervenção do embaixador Souza Dantas. Por esta época, separou-se definitivamente de Oswald.

Foi no rescaldo do Levante Comunista de 1935 que Pagu, retornando de sua viagem, seria presa mais uma vez. Em 1937 conseguiu fugir – do Hospital da Cruz Azul, para onde fora transferida –, sendo, porém, novamente presa em 1938. Processada e condenada pelo Tribunal de Segurança Nacional, só seria libertada em 1940, deixando o cárcere exaurida e muito magra. Rompeu então com o PCB, que por sua vez a expulsou por insubordinação. Em 1940, iniciou-se sua união com Geraldo Ferraz, escritor e jornalista, com quem viveria até o fim de seus dias. Da união nasceria outro filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 1941.

Em 1942, retomou, para não mais deixá-lo, o jornalismo, seu ganha-pão e canal de expressão. Começou a trabalhar na agência de notícias France-Presse em 1945, ali permanecendo por um decênio, e entrou para o corpo de redação da Vanguarda Socialista, fundada por Mário Pedrosa, que congregaria a nata da intelectualidade trotskista.

Depois, Pagu ingressou no pequeno Partido Socialista, pelo qual foi candidata a deputada estadual em 1950. Entre 1952 e 1953, frequentaria a Escola de Arte Dramática de São Paulo, hoje instalada na ECA-USP, para a qual deixaria em legado seus livros de teatro.

LEGADO E ÍCONE FEMINISTA

Pagu será para sempre uma militante sobretudo do socialismo democráticos da cultura e do feminismo.

Em 1940, expulsa do PCB, já morando na cidade de Santos SP, produziu crônicas, poemas, crítica literária, traduções de fragmentos, comentários de artes plásticas, de teatro e de televisão, artigos de política nacional e internacional. Escreveu também sobre música de vanguarda nacional e estrangeira.

Pelo resto da vida se dedicaria ao jornalismo cultural e ao ativismo institucional em Santos, onde presidiu a União dos Teatros Amadores de Santos em 1951, e fundou o Centro de Estudos Fernando Pessoa em 1955. Fundou ainda a Associação de Jornalistas Profissionais de Santos e o Teatro Universitário de Santos, em 1956.

Em 1960, acometida por um câncer de pulmão, Pagu viajou a Paris para tentar um tratamento, que não teve bom resultado. Decepcionada com a situação, decidiu acabar com sua vida, mas a tentativa de suicídio falhou. Ela então regressou ao Brasil, e em 12 de dezembro de 1962 morreu em Santos, vítima da doença

Patrícia Galvão ou simplesmente Pagu. Brilho eterno, libertário e referência para todos os seres inquietos, reflexivos e de coragem capaz de mover o mundo em busca de sonhos de liberdade e esperança.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador. Autor de “Céu de Vaga-lumes: Motinha e Nhá Fia e o Circo Imaginário”, “Miolo e outros contos”, “A Incrível Jornada da Menina Careca”, “Monga, a Menina-gorila” e diversos livros coletivos com grupos ligados a Oficina Experimental de Textos Curtos criada, com a escritora, professora e pesquisadora Edna Domenica, em Florianópolis SC. Em produção para edição, a novela/ficção “As Mãos de Guevara”. Vive na Guarda do Embaú-SC.

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