O caso Araceli
“Só queria que meus pais estivessem vivos para ver que Deus não falhou”
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Em 1973, o Brasil foi atravessado por um crime que nunca cicatrizou. Em Vitória, a menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, de apenas 8 anos, foi drogada, violentada e assassinada. A brutalidade do caso chocou o país. Mas o que mais revoltou foi o que veio depois: a sensação de que a Justiça falhou.
À época, os principais suspeitos pertenciam a famílias poderosas e influentes no Espírito Santo. O processo foi marcado por controvérsias, nulidades e decisões que, para muitos, impediram que o crime fosse devidamente apurado e punido. Décadas se passaram, e o nome de Araceli continuou a ecoar como símbolo da impunidade. O dia 18 de maio, inclusive, tornou-se marco nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, em memória dela.
Cinquenta e três anos depois, na última terça-feira, 3, um novo capítulo macabro reacendeu a memória do caso. Dante de Brito Michelini, um dos principais suspeitos do assassinato, foi encontrado morto aos 76 anos. O corpo estava decapitado e carbonizado. A cabeça não foi localizada. Segundo familiares, ele não tinha inimigos conhecidos.
É evidente que não se combate crime com vingança. Justiça não se confunde com justiçamento. A barbárie não pode ser resposta à barbárie. Mas quando o Estado falha em cumprir seu papel mais básico que é investigar, responsabilizar e punir, abre-se um vazio perigoso. E nesse vazio crescem o ressentimento, a dor sem reparação e a sensação de abandono.
Para a família de Araceli, que atravessou mais de meio século convivendo com a ausência e com a impunidade, o sentimento é complexo. “Só queria que meus pais estivessem vivos para ver que Deus não falhou”, disse Carlos, um dos irmãos. A frase não celebra a morte. Ela revela uma vida inteira de espera.
Nada trará Araceli de volta. Nada apagará o sofrimento de seus pais, que morreram sem ver uma resposta clara do Estado. O desfecho recente não reescreve a história, não substitui um julgamento, não produz justiça institucional. É apenas mais um fato trágico numa trajetória marcada por dor.
Que Araceli e seus pais descansem em paz. E que, mesmo em meio a outro horror, a família encontre algum consolo possível, não na vingança, mas na esperança de que a memória da menina continue a exigir do Brasil aquilo que nunca deveria ter faltado: Justiça.