CINZA NO RETROVISOR
Sob o céu carregado, fios prateados são testemunho da vida bem vivida
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Saí de casa ainda cedo, quando a cidade mal decide se desperta ou se apenas muda de lado no travesseiro e dorme mais cinco minutinhos. O carro, esse pequeno universo de vidro e metal, seguia pela rotina de sempre: semáforos, cruzamentos, buzinas nervosas, ônibus pesados, a pressa alheia atravessando faixas como se cada minuto fosse a partida de uma maratona. Eu conduzia sem qualquer heroísmo, com o pensamento meio fora de mim, ouvindo uma áspera voz no rádio, e foi ao levantar os olhos para o retrovisor, um gesto prosaico, automático, quase defensivo, que me vi por um instante, como quem se surpreende numa fotografia antiga que não lembrava ter tirado.
O céu era cinzento, um cinza sem drama, de manhã útil em que uma chuva ameaça desabar. No mesmo cinza descobri, com uma nitidez quase cruel, os cabelos que já não eram meus como eu os imaginava: nas têmporas, na borda do que um dia foi uma linha firme, havia fios brancos, alguns já decididos, outros vacilantes, como se ainda pedissem permissão para existir. Não era apenas “branco”; era um tom de prata cansada, de fumaça, de nuvem baixa. Foi então que o cinza do alto e o cinza do rosto se reconheceram, como duas coisas parentes que enfim se encontram e não precisam se apresentar uma à outra.
A gente passa a vida acreditando que o tempo é uma abstração, um conceito, um assunto para filósofos e aniversários. Mas ele se denuncia nos detalhes, com a discrição dos fatos irrecorríveis. Lembrei-me de coisas que não testemunhei, mas que vi em velhas casas, em rumos de estradas abandonadas, sinuosas demais para o mundo de agora. Entendi que a memória também embranquece: ela simplifica, encurta, depura, rompe grilhões como se o tempo fosse reduzindo a realidade ao essencial. E, no entanto, eu estava ali, com o volante nas mãos, umas mãos experientes, e aquele retrovisor, esse pequeno delator da vida, me devolvia a prova material de que muita água já correra por baixo da ponte do meu nome.
Pensei, então, no que foi preciso viver para chegar àqueles fios. Revi-me nas alegrias que não fazem barulho e nos sustos que fazem. Nas perdas que silenciam a casa inteira. Nos encontros que reorganizam o mundo. Nos trabalhos que consomem as horas como um bico de gás miúdo e insistente. Nas noites em que o corpo não descansa porque a mente insiste em reescrever, em refazer, em imaginar. Cada cabelo branco, percebi, não é um defeito, mas um pequeno registro, sem carimbo nem autenticação, mas com fé pública de que eu atravessei dias e não desisti de permanecer.
Há quem os combata como se fossem uma afronta estética, como se a vida tivesse o dever de manter-se jovem por decoro. Mas, olhando de novo, com um certo respeito que não tive na primeira vista, compreendi que aqueles fios são privilégio, sim — e privilégio no sentido mais sério da palavra: sinal de que não fui interrompido cedo demais, de que cheguei até aqui inteiro o suficiente para notar. O branco é um troféu discreto. Não se exibe numa prateleira, não dá foto bonita, mas diz, com sobriedade, que houve batalha, houve estrada, houve continuidade.
Quando estacionei e o motor se calou, o céu continuava cinzento e a chuva se aproximava ainda mais. Não obstante, em um pequeno trecho, uma claridade tímida, como se o dia concedesse, por fim, uma trégua. Antes de abrir a porta, toquei de leve as têmporas, não para conferir se era verdade, mas como quem cumprimenta um velho conhecido, desses que chegam sem alarde e ficam. Desci para trabalhar com uma espécie de serenidade nova, aceitando que a vida, quando nos permite envelhecer, não está nos punindo: está nos condecorando, ainda que a medalha seja feita de fios finos, silenciosos, e de um cinza que combina com o céu prestes a desabar.
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Daniel Marchi, poeta e advogado carioca, é editor de Notibras ao lado de Eduardo Martínez e Cecilia Baumann. Leciona na Universidade Candido Mendes. Escreveu os livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.