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Trumpismo

Soberania brasileira é cerceada de porretes a marteladas

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Roberto Amaral - Foto Editoria de Artes/IA

Tanto a preeminência inglesa sobre o Brasil quanto, na sua sucessão, o imperialismo estadunidense, que se instalou nas primeiras décadas da nossa República – nas pegadas da decadência britânica – para chegar a estes dias com a fúria trumpista, têm sido objeto de estudos e de reflexão mais aprofundada a partir da formação de pesquisadores universitários, fruto da criação de cursos de Ciência Política e Relações Internacionais e, concomitantemente, do maior acesso a documentos.

Ao lado do papel das universidades (vale mencionar a UnB, a PUC-Rio, a USP e o antigo IUPERJ, hoje hospedado na UERJ), é de mencionar o estímulo à pesquisa e às dissertações de mestrado e doutorado, bem como o acesso facilitado às fontes primárias, propiciado pela abertura de arquivos norte-americanos, franceses, ingleses e portugueses. Igual relevância se deve aos intercâmbios internacionais e aos incentivos e bolsas de estudo financiados por agências nacionais, como o CNPq e a Capes, e mesmo por organizações internacionais, caso das Fundações Ford, Rockefeller e Fulbright, além da USAID. Assinale-se, igualmente, ainda neste contexto, a contribuição dos chamados brasilianistas, como Thomas Skidmore, Alfred Stepan, Kenneth Maxwell, Leslie Bethell e Alan K. Manchester.

Consabidamente, parte do financiamento internacional às ciências sociais esteve inserida no contexto da Guerra Fria e da disputa de influência política dos EUA na América Latina. Mesmo assim, muito relevante foi produzido.

Fora do âmbito universitário e dos espaços do Itamaraty, as preocupações com a política internacional circunscreviam-se a poucas instituições; raras eram as revistas especializadas e poucos os intelectuais, historiadores e pesquisadores que se dedicavam ao tema. Dentre esses, certamente o mais conhecido e lido terá sido José Honório Rodrigues. O ambiente se altera a partir do final do governo constitucional e democrático de Getúlio Vargas, das tímidas iniciativas de Juscelino Kubitschek, como a OPA (Operação Pan-Americana), e da crise didática com o FMI. Mas o tema só conquistou destaque a partir de 1961, com a Política Externa Independente (PEI), patrocinada por Jânio Quadros, implantada em seus cruciais primeiros tempos por Afonso Arinos e estruturada como tese por San Tiago Dantas.

Assim, de fraque e cartola, a temática – nossa subordinação aos sucessivos impérios, e a necessidade de superá-la – finalmente será recebida pela inteligência acadêmica e, afinal, pautada pela imprensa. Será sustentado pelo governo de João Goulart, sem retoques, mas dificuldades com causas profundas, se considerarmos o recrudescimento da Guerra Fria, a crise dos mísseis em Cuba e as articulações golpistas do governo dos EUA, abertas por John F. Kennedy e concluídas por Lyndon B. Johnson em 1º de abril de 1964, nos termos conhecidos.

A partir do golpe, e vistas suas fontes e seus projetos, postas às claras já no Ato Institucional nº 1, escrito por Francisco Campos e datilografado por Carlos Medeiros e Silva (futuro ministro da Justiça) para a assinatura dos generais, qualquer sorte de política independente seria inadmissível, e o regime militar tratará de seguir com fidelidade canina a ordem dos interesses políticos e geoestratégicos dos EUA, que tanto contribuiu para o Primeiro de abril. Nosso embaixador em Washington, o primeiro nomeado pelo mandarinato militar, e em seu primeiro pronunciamento na capital estadunidense, anuncia uma cartilha que orientará seu ofício: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”.

E assim foi.

Esta declaração não pode ser desqualificada como uma gafe, eis que se trata da explicitação consciente e militante da ideologia da classe dominante brasileira. O embaixador-geral Juracy Magalhães não é um fardado qualquer. Sua história tem raízes na Revolução de 1930 e na ditadura do Estado Novo, a que serviu e de que se serviu como interventor na Bahia (nomeado por Getúlio Vargas), de onde emergiria como líder político. Militar, participaria de todas as quarteladas que marcaram a segunda metade do século passado, inclusive a deposição de Vargas e, finalmente, do golpe de 1964, que o faria, além de embaixador nos EUA – o primeiro da ditadura, como vimos – ministro das Relações Exteriores e ministro da Justiça.

A preeminência norte-americana, a fase imperialista, manifesta-se mais precisamente a partir da década segunda do século passado, mas sua influência ideológica vem de antes, pois vai ao encontro do “americanismo” de Joaquim Nabuco. O antigo líder abolicionista, prócer destacado da elite intelectual e econômica de Pernambuco, deputado-geral no Império, embaixador em Washington entre 1905 e 1910, antevia o século XX como o “século americano” e isso resolveu investir.

Pragmático, transitava do monarquismo para a República e pregava a necessidade de o Brasil ocupar uma posição privilegiada junto aos EUA. Pouco atento à realidade (Nabuco será embaixador durante a presidência de Theodore Roosevelt – 1901-1909 -, a quem se deve a política do big stick!), acreditava que a amizade que oferecia aos EUA protegeria o Brasil de intervenções das decadentes potências europeias. Potências que, como é sabido, não nos ameaçavam.

Assinalo esse período como o primeiro marco da influência ideológica dos EUA, que aqui chega com a Proclamação da República e o recesso do positivismo (e, no mesmo embalo, das lideranças maçônicas que vinham do Império), tanto na política quanto na formação dos quadros militares. Por então, a Inglaterra ainda mantinha sua presença e sua influência no comércio e no setor de serviços e, principalmente, na área financeira (a Casa Rothschild chega ao Brasil com os empréstimos que financiam a Independência e nos jogaram de mãos e pés atados no colo da Coroa britânica), presença e influência que se vão esmaecendo à medida que se afirma, já a partir dos anos 1920-30, as relações com os EUA, mediadas principalmente por nossas exportações de café.

A grande influência, ainda económica e já política, ideológica e cultural, opera-se de forma mais clara a partir da Segunda Guerra Mundial. Sai para a cidade de Londres, voltamos para Wall Street.

Neste ponto, os desdobramentos são múltiplos e abarcam todos os campos – econômicos, políticos e ideológicos – que, ainda na Itália, emprestarão novos núcleos e ditarão novos rumores para as Forças Armadas brasileiras – daí em diante, americanófilas, desenraizadas de qualquer tipo de projeto nacional e, incuravelmente insubordinadas, quebrando seguidamente a ordem constitucional, de agosto de 1954 até 1985, quando o último general tirador, saindo pela área de serviço, deixa as dependências do Palácio do Planalto.

(Quando a densa poeira de hoje baixar, será possível conhecer e trazer ao crivo da história a participação de segmentos ponderáveis ​​das Forças Armadas na fracassada intentona de janeiro de 2023.)

A presença, a influência e o mando do imperialismo manifestam-se através de formas e meios os mais variados. O roteiro é extenso e rico, pois contempla o poder econômico, o ditame político-militar (as intervenções, as invasões, os golpes de Estado e as guerras) e o soft power ideológico. Os produtos que se espalham pelo mundo fora trazem também seus valores, o American Way of Life, e ambos são comprados e consumidos.

No rastro do poder econômico e militar, impõe-se presença a política e ideológica, formatando “corações e mentes”, com o monopólio da fala e da imagem, a serviço de seus interesses, sejam econômicos, sejam geopolíticos, pondo por terra as aspirações de soberania nacionais que não lograram apresentar-se, no presente, como potências militares.

Superada política e culturalmente a subordinação colonial, vencida a influência francesa e o predomínio britânico, caminhando para a maioridade posteriormente, o maior país da América do Sul era uma colônia cultural virtual da grande potência do Norte, que formará nossos pesquisadores, nossos cientistas, nossos historiadores e formará, profissional e doutrinariamente, nossos oficiais superiores.

Será, enfim, a lente por meio da qual contemplaríamos o mundo que nos foi apresentado como modelo a copiar, e certamente é a fonte na qual vai beber o gênio de Nelson Rodrigues, com o seu achado do “complexo de vira-latas”, a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do “Primeiro Mundo”, ou, em outros termos, mas ainda em reflexão e palavras rodriguianas, o “Narciso às avessas”, que cospe na própria imagem.

Este é o presente que reproduz o passado. E, tanto no presente quanto no passado, as tropas invasoras têm o caminho aberto pela alienação das elites locais (recomendo a leitura de “Kissinger no meio do redemoinho”, texto de Luís Cláudio Villafañe e Rogério de Souza Farias, no Piauí deste mês).

Vimos como a Avenida Paulista reagiu aos primeiros tarifas impostos ao Brasil por Washington: servilmente, sem nenhuma crítica ao ato de força que atingia nossa economia. Chega agora o segundo tarifaço, há muito anunciado e há muito esperado, porque, com justiça lhe seja feito, a imprensa cobriu muito bem as andanças do senador Flávio Bolsonaro nas cercanias da Casa Branca. Repete-se o capachismo.

O novo pacote de tarifas afetará “cerca de 3 mil itens exportados e mais de US$ 11 bilhões em vendas da indústria e do agronegócio brasileiro” (Valor, 17/07/2026). Mas a alienação da classe dominante não sofre abalos. O que se ouve e o que se lê é o velho cantochão empresarial, a que adere uma coorte de “especialistas”, a ditar “bons modos” ao nosso governo, e por bons modos leia-se: “não há nada por fazer”, senão negociar nos termos impostos pela Casa Branca, ou seja, sentar-se à mesa com o parceiro inconfiável e ainda poderoso, porque é ele que escolhe as cartas, reserva para si os ases, os reis e o coringa, e ainda pode, ao seu talante, alterar as regras do jogo.

No entanto, os empresários insistem e repetem o que se chama de “grande imprensa”: “é hora de negociar”, e não se fale em reciprocidade. Ou: “às favas a dignidade nacional”, que nos deve lembrar a conhecida exaltação retórica do coronel Passarinho – exemplo conspícuo da caserna engalanada – na reunião do Ministério Costa e Silva que instituiu o AI-5: “Às favas todos os escrúpulos de consciência.”

O conselho, ditado a um presidente geral da República, bem se aplica ao quadro presente, pois nada nos recomenda esperar de nossas lideranças empresariais além da contabilidade de seus lucros imediatos. Às favas, portanto, com nossa soberania, com nossa dignidade, com nosso amor-próprio, com os velhos sonhos de conversar com o mundo de cabeça erguida e tendo o que dizer.

A agressão de Washington opera no curso lógico de sua investida imperialista sobre a América Latina, revivida como seu “quintal”. Neste contexto, cresce a importância da América do Sul e, nela, do nosso país, rico em minerais essenciais à tecnologia dual do século XXI, como as terras raras e o lítio. As consequências são sabidamente péssimas. Mas como explicar a um empresário forâneo, a uma classe dominante alienada, a Forças Armadas doutrinadas pelo inimigo? Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Paraguai… como não enxergar o cerco? O que se opera, por detrás das tarifas e de outras impertinências, como as que alcançam o STF, é, nas palavras de Hussein Kalout (citado por César Felício, “Objetivos de Trump vão além de interferir na política do Brasil”, Valor, 17/07/2026), “cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental”.

O fato é isso. O mais são suas consequências. Os crimes do anfitrião – encerrou-se no último domingo, sem deixar saudades para a torcida brasileira, a Copa do Mundo da FIFA 2026 – marcada não só por bom futebol e festa nas arquibancadas, mas também por lances esdrúxulos fora do campo, como constrangimentos a jogadores e torcedores do Sul Global, perseguição à seleção iraniana e até a mesma intervenção direta do projeto de autocrata estadunidense para anular um cartão vermelho aplicado com justiça, por um julgado brasileiro – ao craque de seu tempo. A poucos quilômetros do estádio que assistiu à vitória indiscutível espanhola estão encarcerados Nicolás Maduro e sua esposa, sequestrados por militares dos EUA em janeiro deste ano, durante ataque ilegal que vitimou cerca de 100 pessoas e franqueou os agressores o controle do bilionário setor de petróleo e gás da nação sul-americana.

Burguesia invertebrada – Nesse contexto, e enquanto Donald Trump ameaça a realização das eleições legislativas previstas para novembro, num passo arriscado que pode consolidar o fechamento do regime, e o Tesouro dos EUA começa a produzir moedas com a efígie do incumbente, o inexcedível Estadão derrama-se em loas ao que identifica como vigor da democracia americana: “Ao completar 250 anos de independência sem rupturas, os EUA reafirmam ao mundo o valor da estabilidade das instituições democráticas, pilar do seu desenvolvimento formidável”.

Moral grouchiana – A imprensa pouco comentou e comentou um dado eloquente da Copa que agora se encerra: a ausência da Federação Russa. Desde fevereiro de 2022, FIFA e UEFA suspenderam seletivamente e clubes russos de suas competições, em razão da invasão da Ucrânia (resposta de Moscou ao avanço da OTAN), decisão confirmada pela Corte Arbitral do Esporte (CAS). De princípio, nada a objetar: as agressões militares não deveriam ser premiadas com a normalidade esportiva. O que salta aos olhos, porém, é uma assimetria gritante. Os EUA, que tiveram a maior parte do torneio e a própria finalíssima, não sofreram nenhuma sanção esportiva, apesar das agressões ao Irã e à Venezuela, e o patrocínio – diplomático e financeiro – ao genocídio palestino. A FIFA, que se apresenta como guardiã dos valores universais do esporte, aplica seus ditames conforme a geografia do poder. E o mundo responde com um silêncio tonitruante.

………….

Roberto Amaral foi ministro da Ciência e Tecnologia com Lula 1

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