Venezuela é atacada
Soberania nacional é inegociável
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A invasão dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro me causaram um incômodo difícil de explicar. Não apenas pelo fato em si, que considero grave, perigoso e profundamente desestabilizador para a ordem internacional, mas me refiro a um desconforto mais sutil: perceber que, diante desse episódio, me vi concordando, ainda que pontualmente, com pessoas que considero politicamente e moralmente repugnantes.
É estranho, quase indigesto, reconhecer pontos de convergência com figuras como Marine Le Pen, Aécio Neves e João Amoêdo. Pessoas com trajetórias, discursos e projetos de sociedade que rejeito frontalmente, mas que, neste caso específico, também manifestaram críticas a uma intervenção externa dessa natureza.
E é justamente aí que mora o desconforto. Não se trata de rever convicções, tampouco de relativizar diferenças profundas. Trata-se de reconhecer que há princípios que devem estar acima das disputas ideológicas: a soberania dos países, o respeito ao direito internacional e a rejeição a soluções militares ou espetaculosas para crises políticas complexas.
A ideia de que uma potência estrangeira possa invadir um país latino-americano e sequestrar seu chefe de Estado (goste-se ou não dele) carrega ecos sombrios de um passado que conhecemos bem. Um passado de intervenções, golpes, tutelas e violência travestidas de “defesa da democracia”. E é justamente por conhecer esse histórico que me oponho a esse tipo de ação, ainda que, circunstancialmente, essa posição me coloque ao lado de gente que jamais caminharia comigo em qualquer outro debate.
Concordar num ponto não significa compactuar com um projeto. A política, apesar das caricaturas, não é um jogo de torcida organizada em que tudo se resolve pelo “nós contra eles”. Há momentos em que a defesa de princípios básicos nos obriga a suportar esse tipo de incômodo. E talvez esse desconforto seja, paradoxalmente, um sinal de lucidez: saber exatamente por que se concorda em algo, e, principalmente, por que se discorda de quase todo o resto.