O Natal que eu queria
Sobre afeto, cobranças familiares e a coragem silenciosa
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Já era dezembro quando Paula percebeu que o Natal se aproximava. Para as épocas festivas, tinha duas opções de escolha: comemorava junto de seus familiares, ou assumiria uma guerra com eles. Pensar na segunda opção a deixava sem energia.
Ela amava sua família, eram unidos e gostavam de estar juntos sempre que podiam. Porém, havia muitas cobranças de ser mais presente. Por estar na meia idade, ser solteira e não ter constituído família, constantemente Paula percebia ser vista como se fosse uma coitada solteirona que precisava, em todas as ocasiões, estar junto dos pais, dos irmãos e sobrinhos.
Nos aniversários, épocas festivas e até finais de semana, era lembrada de suas obrigações. “Você tem que vir!”, “Ah, vai ficar sozinha em casa, por quê?”, “Vem pra cá!” Paula dava muito valor ao carinho de sua família, mas sentia-se sufocada com tanto controle e, muitas vezes, críticas disfarçadas de preocupação. “Morar sozinha é desperdício, olha a casa enorme dos nossos pais”. “Você está há meses se encontrando com esse rapaz e diz que não é namorado? Isso não entra na minha cabeça, cuidado com esse rapaz, está usando você”.
Por mais que explicasse à família que todo adulto precisa de espaço próprio, e que com ela não era diferente, era difícil para eles não ultrapassarem seus limites e entenderem que Paula era realizada com a vida que escolhera viver.
No último encontro com sua família, um almoço de aniversário, os risos, conversas e comilanças eram de preencher o ambiente de alegria. Tão difícil reunir todo mundo, tanta conversa boa para ter e tanto o que nos atualizarmos uns dos outros: projetos futuros, conquistas, um filme que assistimos…, mas a conversa preferida, sempre puxada pelos mesmos personagens transvestidas de brincadeira, era o inocente “E aí Paulinha, quando vai trazer o novo namorado pra gente conhecer?” Não era a pergunta em si que a abalava, mas vir na frente de todos, sem ninguém cortar a situação, pelo contrário, ainda estimulavam com risadas. Situações assim faziam-na ter vontade de ir embora. Não gostaria de precisar justificar sua vida, tampouco ficar autoafirmando que está bem, se está saindo com alguém ou não, se namorava ou não, pois eram situações que só diziam respeito a ela.
Para sua família, infelizmente, seu valor e sua felicidade estão atrelados a ter companhia. Não basta ter independência, seguir minha vida da maneira que quero, tenho que ouvir minha mãe dizendo que reza para que eu encontre “um bom homem”.
Paula flerta com a possibilidade de, em algum Natal, comprar uma passagem e viajar para um lugar qualquer. Longe das pressões, conversinhas e críticas disfarçadas de preocupação. Sabe que precisa lidar com essas situações, toda família tem suas peças e precisamos saber ceder, mas quando a paciência e jogo de cintura vêm sempre do mesmo lado, a balança desequilibra.
Não seria nada ruim visitar um destino bonito, tomar um bom café da manhã em um local desconhecido, tomar vinho vendo TV até tarde, paquerar em alguma praia, enfim, escolher um Natal diferente, fora de seus costumes habituais, mas iluminado, leve e feliz à sua maneira.
Para Paula, essas belas fantasias não cabiam em sua vida real, não teria coragem de desagradar sua família dessa forma, afinal são tão presentes e preocupados. Os encontros familiares eram responsabilidades que pareciam um acordo silencioso. Não via saída, engolir sapos e lidar com comentários sem noção eram pequenas desilusões, mas era um fardo que precisava carregar, afinal tinha também seus bons momentos.
Chegando o Natal, a família, como sempre, unida e alegre por estarem juntos. Durante o delicioso jantar e a troca de presentes, começaram os costumeiros comentários da família. Dessa vez, porém, as conversas sobre o “peguete” de Paula saíram dos holofotes. O estranho no ninho da vez foi seu sobrinho, rapaz de 23 anos que não passou esse Natal com eles. Juntou com a namorada e uns amigos e alugaram uma casa no Nordeste para passarem as festas, fizeram as malas e pegaram a estrada. Os pais, chateados com a decisão do garoto que não pediu para ir e apenas comunicou, não puderam fazer nada além de espernear. Segundo contaram, o rapaz jogara na cara: “sou adulto, trabalho e estou me preparando para ter minha vida em breve. Posso passar o final de ano da maneira que eu quiser, se vocês acham que amo menos vocês por isso, sinto muito, mas não vou cair nessa chantagem”. “Ele sabia que não concordaríamos e só avisou perto da viagem, para não termos chance de reverter, planejou tudo sem nos perguntar”.
Naquela noite, Paula sentiu-se iluminada pela coragem de seu sobrinho. Enquanto seu irmão e esposa, consternados, continuavam a relatar o ocorrido, Paula pensava: “Meu sobrinho, você cresceu! Que orgulho! Você fez o que a vida inteira sua tia, covarde, para não desagradar ninguém, não teve coragem de fazer. Seu ensinamento foi meu presente de Natal!”
Ali, celebrando em família, Paula decidiu que no próximo Natal, faria diferente, criando coragem para tirar seus sonhos do fundo da gaveta. Seu sobrinho já abriu o caminho e, inspirada nele, faria o mesmo. Sentada no sofá, apreciava as luzes de Natal e as sombras de seu coração se dissipavam. O amor não floresce somente dentro da família, e o Natal também pode ser um tempo para celebrar quem somos e desenvolver a coragem para o que desejamos ser.
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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024).