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O LADO B DA LITERATURA

SOBRE MORCEGOS, VELAS E BODAS DE DIAMANTE

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Acervo pessoal

O Lado B da literatura hoje faz uma pequena viagem no tempo. Como de hábito, é certo.

Vamos ao Estado do Rio de Janeiro, em 1964. Era um mundo remoto, bastante diferente de hoje. Nomes que já desfilaram por esta coluna, como Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira, Lúcio Cardoso, Cecília Meireles e Adalgisa Nery, ainda caminhavam à solta por aí, cometendo seus atos de literatura. Presidentes em exercício ainda não haviam sido depostos — estava por pouco — e a TV no Brasil ainda dava seus primeiros passos, pois, quase 14 anos após sua fundação, ainda não ocupava milhões de lares brasileiros. Havia uma certa inocência, um ar naïf no mundo, que um dos protagonistas desta história, no entanto, costuma me dizer que não passa de uma visão meio romantizada do passado, e que os homens e mulheres foram sempre praticamente iguais em seus dramas, conquistas, preocupações e desejos.

Naquele ano, encontramos três amigos, dois deles primos, combinando uma viagem para o interior. Um parente dos dois primos tinha uma fazenda em Casal, localidade hoje perdida no interior do Rio. Iriam descansar ali, passar uns dias próximos da natureza. Seus nomes eram Celso, Hely e Udowaldo.

Partiram do Rio de Janeiro até Barra do Piraí num trem da Central do Brasil, pararam numa das estações da cidade onde, num Jeep, Zé Eurico, parente de Hely e Udowaldo, os esperava para levá-los à fazenda, afastada da cidade por alguns quilômetros de estrada de terra.

Chegaram com sol ainda alto no céu e aproveitaram muito o primeiro dia, após um lauto lanche oferecido por dona Rute, mãe de Zé Eurico e dona da casa. Andaram a cavalo, tomaram banho de cachoeira, pescaram no rio Paraíba do Sul, que serpenteava por dentro da antiga propriedade. Celso chegou quase a passar mal, de tanta jabuticaba que comeu do pé.

A fazenda pertencera ao Coronel Laudelino, que anos antes havia perdido a vida num trágico acidente de trem. A casa-grande era confortável e bela, mas não contava com luz elétrica, exceto por um “burrinho”, que era como chamavam um sistema que aproveitava uma pequena roda d’água para gerar energia, abastecendo o local até certa hora, mas que precisava ser desligado, pois, se passasse a noite toda funcionando, queimava.

Depois de umas oito horas da noite, as pessoas precisavam usar lamparinas a óleo ou enxergar sob as chamas bruxuleantes de velas.

Quando caía a tardinha e os visitantes conversavam com o anfitrião na sala da casa-grande, Hely e Udowaldo, que tinham intimidade com Zé Eurico, viram algumas manchas pretas no teto e fizeram troça, dizendo que a casa estava suja.

Zé Eurico os olhou desafiador. Foi atrás de uma porta, pegou um chicote guardado ali, desenrolou-o e estalou no chão, fazendo um alto ruído. Na mesma hora, uma revoada de morcegos — as tais manchas pretas no pé-direito alto — saiu assustada.

Hely e Udowaldo ficaram apavorados. Tinham medo de morcegos. Garotos criados na cidade. Celso lhes disse, acompanhado de Zé Eurico, que aqueles morcegos nenhum perigo representavam, pois só comiam frutas. Mas não adiantou. Os medrosos disseram que iam dormir de luz acesa. Zé Eurico lembrou que, em poucas horas, iam apagar o gerador e não tinham vela para queimar a noite inteira.

Os dois rapazes fizeram o barqueiro levá-los na balsa até a outra margem do rio, àquela hora, apenas para comprarem um grande pacote de velas no único armazém das redondezas, que eles foram queimando madrugada adentro, iluminando fracamente o quarto em que dormiram, com medo de um suposto ataque de morcegos, enquanto Celso, acostumado com a natureza no sítio que seu pai tivera, dormiu como um anjo.

No dia seguinte, Hely e Udowaldo estavam quebrados, não haviam descansado nada. Queriam ir embora. Para não perderem a viagem, Zé Eurico os convidou para irem à casa da família na cidade de Paraíba do Sul. E partiram.

Lá chegando, conheceram a pequena cidade, muito diferente da Paraíba do Sul de hoje. Zé Eurico foi convidado para um casamento, depois do qual haveria uma pequena festa. Não se sentiu muito disposto a ir, mas os três visitantes, galhofeiros, que nada tinham a ver com os noivos ou seus parentes, foram no lugar do convidado. Assistiram à cerimônia e participaram da festa. Durante a noite, Hely e Udowaldo se interessaram por duas irmãs que ali estavam, Marlene e Marília. Puxaram assunto, conversaram, foram tratados com muita simpatia. As moças eram muito bonitinhas, interessantes.

Os dois rapazes combinaram de se encontrar com elas outra vez durante a viagem que faziam. E, para que o amigo Celso não ficasse deslocado, perguntaram se as duas não teriam uma amiga para trazer. Elas disseram que fariam melhor: trariam a outra irmã, Marilda, que era mais tímida. Celso deveria se esforçar para encontrar assunto e conquistar sua simpatia.

E assim foi feito. Saíram os três casais por um par de vezes durante a estada dos visitantes naquela cidade. E o interesse foi tanto que combinaram de voltar.

Voltaram muitas vezes. O pai das meninas, indo atrás de uma boa proposta de emprego, transferiu-se com a família para Barra do Piraí, para onde o trio passou a ir e voltar, entre namoro e noivado. Outras conversas renderam, e as afinidades foram tantas que, em 1965, Udowaldo casou-se com Marília e, em 1966, Hely e Marlene, Celso e Marilda, casaram-se no mesmo dia, na Catedral de Santana, em Barra do Piraí.

Hely e Udowaldo já se foram deste mundo.

Celso e Marilda, no dia 28 de maio, completaram 60 anos de casados. Bodas de diamante. Que grande marca!

E o que esta história tem a ver com o Lado B da literatura?

Quase nada. Exceto pelo fato de Celso e Marilda serem os pais deste que vos escreve aqui no Café Literário, e Eduardo Martínez, meu colega maior na mesma tarefa, ser o afilhado preferido deles, como ele mesmo diz — disputando o posto com Luciano, filho de Hely e Marlene.

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Cassiano Condé encontra-se de férias de Notibras, hospedado em alguma estância uruguaia e bebendo um bom chimarrão, tendo deixado a mim a incumbência de fazer a coluna de hoje.

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