Verão
Solidão e confusão
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A mulher enfia o celular na boca e diz: “EU TE AMO”.
O cara ao lado, chuta o cachorro e depois dá um meigo abraço no pequeno filho brincando na areia. Volta e diz: “EU TE ODEIO”
A mulher do celular na boca acende um cigarro. Dois. Três. O maço inteiro.
O menino na areia dá porradas com baquetas numa mini bateria. Vira os olhos imensos, epiléticos e diz: “VOCÊ SÃO UNS MERDAS”.
O pai requebra feito Sangalo e revira mãozinhas, cadeiras e olhinhos.
Verão beira mar: um Sol pra cada um.
A turista enorme, besuntada – lá do Oeste -, tem um acesso de insolação e depois dorme torrando sobre a esteira na areia.
A mulher joga o celular no mar e exclama: “TÔ LIVRE!”.
O pirralho agora toca bateria na careca do homem na mesa ao lado.
A mulher senil dá com a bengala nas pernas do garçom e grita: “NÃO QUERO SUCO DE BETERRABA, PORRA! QUERO CAIPIRINHA DE VODKA, CACETE!”.
No pequeno palco a banda assassina Bob Marley em Dó maior enquanto o crooner “dread de butique” geme em Mi menor.
O Sol racha e a praia é um caldeirão incendiário.
Lobo, o cão comunitário, tenta trepar com os pés da moça sentada na cadeira de praia que não desgruda do livro “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir.
E passam as horas. Fim de tarde.
E eu fico aqui sentado vendo a grande confusão.
Ah, confusão é comigo mesmo.
Vixi… agora a noite está só começando. E eu grito: “VIVA O VERÃO!”.
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*Foto Tasso Scherer
**Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e viciado em cenas praieiras de Verão. Vive na vila da Guarda do Embaú, litoral de SC.