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O retorno

Sorriso d’A Dama do Meu Jardim ficou comigo

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto Acervo Pessoal

A tarde caía suave sobre mim. E eu, na beira da grande piscina daquele antigo e belo hotel no sul das Minas Gerais, prestava atenção nos mais discretos sons, aromas e sabores. Desde que ela se fora, minha vida era repetir quase obsessivamente os passos que caminhara com ela e, nesse reviver ambientes, ela também revivia e estava, de novo, no lugar que ela nunca devia ter deixado – do meu lado. Eram os mesmos passeios, as mesmas viagens, os mesmos hotéis, os mesmos restaurantes.

Em tudo sua voz fazia falta. Sua arguta inteligência em fazer observações e perceber coisas que os outros não percebiam, também. Se era sensibilidade ou vidência, não sei.

Seu perfume, tão discreto e doce, já é ausente há tanto tempo, mas fica vivo em minha memória. Lembro-me do dia em que saímos para comprá-lo da última vez. A vendedora da loja disse o preço, esperando alguma contrariedade nossa no balcão. E ainda completou dizendo: “é para a senhora usar em dias especiais”. Eu respondi que não. Preferia que ela usasse no dia a dia mesmo. Todos os dias, afinal, eram especiais. E, se acabasse, comprávamos outro.

Não foi necessário, o frasco ficou pela metade. Agora que isso me passou pela cabeça, nem lembro onde está esse frasco. Talvez esteja guardado, ainda, no lado dela do armário, que eu evito abrir e mexer.

O cheiro de madeira queimada da caldeira do hotel incomodava alguns outros hóspedes à minha volta, conforme percebi pelos comentários ouvidos. Mas eu me sentia privilegiado por estar sentindo-o, pois era exatamente ali que, poucos anos atrás, numa de nossas idas ao local, conversávamos sobre o futuro – que não chegou – e coisas amenas.

Um casal de pequenas aves verdes cruzava o espaço e pousava no telhado próximo, fazendo exatamente o mesmo som que escutara com ela. O sabor do café da manhã havia sido igual, bem como a textura da fronha do travesseiro, a forma como o velho sofá de couro se moldava sob o peso de nossos corpos relaxados, o banho no antigo banheiro, o sol entre as nuvens da manhã, o luar a postos naquela mesma noite e o chão lá fora, brilhando, após uma breve chuva de verão… Todos esses elementos reconstruíam o mesmo cenário e traziam de volta as circunstâncias em que eu ainda tinha sua companhia e pensava que seria para sempre.

No fundo, todos temos a consciência da finitude da vida. Uma hora, alguém deixa de trilhá-la conosco, fica pelo caminho, mas sempre esperamos que demore. Demore tão longamente que só vamos ter contato com esta realidade quando ela acontece, de muitos em muitos anos.

No entanto, com ela foi diferente. A indesejada das gentes nos pegou de surpresa. E o fim da viagem a dois foi num dia de sol e de chuva, com uma temperatura atípica para aquela época do ano. Nenhum tempo, no entanto, seria suficiente. Nenhum século, bastante.

Recitei para ela, ainda uma vez, “A Dama do Meu Jardim”. Afinal, o poema era dela. E parti. Fui embora pensando no próximo destino em que me lançarei para buscar ainda as mesmas memórias, como a esperar que, de repente, venha a encontrá-la saindo de uma porta, ao acaso numa loja ou numa esquina, ou já sentada à mesa me esperando, com seu inconfundível sorriso que ela dava toda vez que me via.

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