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Tio Juca

Sorte tinha o Augusto

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Tio Juca, figuraça. Namorador além da conta, nunca se dispôs a se casar. Dizia que já havia nascido viúvo.

Bonito sem ser galã, fazia sucesso com parte das mulheres, enquanto a outra, certamente mais ajuizada, preferia manter distância do sujeito. Minha avó parecia compactuar com estas:

— Que Deus me perdoe, mas, mesmo tendo saído de mim, o melhor era ter nascido capado.

Até onde sei, o primogênito de vovó não deixou herdeiros. Talvez não seria bom pai, mas como tio era muito divertido. Sem contar que era invejado por Augusto, o irmão caçula. É que este era casado com a Mariana, mulher de bofes estragados, como minha mãe costumava dizer.

— Meu irmão deve ter jogado pedra na cruz.

Por incrível que pareça, tio Juca fazia questão de enaltecer a cunhada. Hoje, no entanto, chego a imaginar que aquilo não passasse de encenação. Todavia, por pior ator que fosse, o irmão de minha mãe me convencia aos oito anos.

— Sorte mesmo tem o Augusto. No dia em que eu encontrar uma Mariana, acho que até caso.

Nessas ocasiões, quando eu estava por perto, ele despenteava carinhosamente os meus cabelos e, apesar da seriedade no rosto, sorria com os olhos.

— Tu é falso, Juca!

— Que isso, mamãe!? Ou a senhora vai querer me dizer que a Mariana não é a nora dos seus sonhos?

— Hum!

Particularmente, nunca tive motivos para duvidar. Tia Mariana sempre me trouxe balas e pirulitos. Quem não gostava muito era a minha mãe. Mal a cunhada dava as costas, mamãe reclamava:

— Essa aí quer ver o meu menino com os dentes podres. Pois sim!

E eu ali, mãos abarrotadas de guloseimas, me sentia alfinetado pela culpa.

— Anda, Joaquim, me dá umas balas dessas. E ai de você se falar isso pra alguém! Vai ter, hein!?

Tio Augusto não teve filhos também. Vez ou outra, alguém comentava pelos cantos que a culpa era da Mariana, cujo útero era um verdadeiro deserto. Ninguém ousava mencionar que aquilo poderia ser por conta da caxumba que o marido tivera na adolescência. Pois é, desceu.

A morte do tio Juca nos pegou a todos de surpresa. Infarto fulminante pouco antes de completar 40 anos. Muita gente apareceu no velório, todos choramos muito. Aquele foi o meu primeiro luto de verdade.

Lembro também que aquela foi a única vez que vi minha mãe e vovó abraçadas à Mariana. Minha tia me pareceu sinceramente abalada. Foi naquele dia em que percebi que a dor pode ser tão forte a ponto de tornar tudo ao redor pequeno.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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