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Abusar, não!

‘Sou o Brasil das terras raras, aberto a acordo’

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Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto Editoria de Artes/IA

Falam em mim como se eu fosse mapa, cifra, estatística de relatório técnico. Mas eu tenho memória, tenho poeira, tenho povo. Sou o Brasil – e ultimamente tenho me sentido um cofre aberto.

Descobriram que carrego nas entranhas um tesouro moderno: nióbio, lítio, grafita, elementos que atendem pelo apelido elegante de “terras raras”. De repente virei visita obrigatória em agendas diplomáticas, tema recorrente em conferências, desejo sussurrado em corredores onde gravatas custam mais que comunidades inteiras.

Vejo delegações desembarcarem em Brasília com sorrisos largos e discursos sustentáveis. Falam de parceria, de futuro verde, de transição energética. Eu escuto. Aprendi a escutar desde que me prometeram espelhos e entregaram dívidas.

Sei que, em nome do progresso, meu subsolo reluz como vitrine. Para alguns, sou a bateria do mundo; para outros, a garantia de supremacia tecnológica. Há quem me olhe como quem examina uma mina a céu aberto, calculando quantos anos de vantagem cabem dentro de uma montanha.

Quando pronunciam meu nome em Washington, penso nos contratos. Quando repetem em Pequim, imagino navios. Se ecoa em Bruxelas, antevejo relatórios cheios de boas intenções e rodapés complicados.

Eu, que já fui pau-brasil, ouro, borracha, café, petróleo, agora sou ímã, turbina, chip. Trocam o rótulo, preservam a fome.

Não me entendam mal: não renego o mundo. Não quero viver de costas para ele, como quem teme o vento. O que me inquieta é o velho roteiro com figurino novo. Chegam dizendo “cooperação”, mas trazem calculadoras. Oferecem tecnologia, mas pedem pressa. Aceleram meus relógios para que eu não tenha tempo de perguntar quem ficará com o quê – e com o buraco.

Enquanto isso, nas regiões onde a riqueza dorme sob a terra, a superfície acorda cedo. Ali vivem brasileiros de carne, osso e esperança, gente que sabe que desenvolvimento não pode ser sinônimo de despedida. Eles me lembram, todos os dias, que soberania não é palavra de palanque; é comida, escola, estrada, dignidade.

Sou cortejado como potência ambiental e, ao mesmo tempo, pressionado a virar supermercado mineral. Querem meu discurso limpo e minha matéria-prima abundante. É uma equação curiosa: esperam que eu salve o planeta sem que eu decida meu próprio destino.

Às vezes me pego diante do espelho da história. Vejo caravelas disfarçadas de cargueiros, capitanias hereditárias convertidas em joint ventures. Mudam as bandeiras, sofisticam-se os termos, mas o brilho no olhar continua o mesmo.

Ainda assim, não sou apenas vítima de cobiça. Sou também escolha. Posso aprender com meus tropeços, exigir contrapartidas, formar gente, dominar processos, transformar minério em conhecimento. Posso deixar de exportar futuro bruto e começar a lapidar amanhã aqui dentro.

Falo em primeira pessoa porque cansei de ser narrado por outros. Minhas terras raras são raras porque são minhas – e porque o mundo decidiu que precisa delas. Pois que precise também de mim inteiro, com voz, voto e projeto.

Se vierem, que venham para construir junto. Caso contrário, fecho o cofre, reorganizo a memória e lembro que a riqueza maior nunca esteve apenas no fundo da terra, mas na capacidade de decidir o que fazer com ela.

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