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Vozes da Literatura

Tania Miranda sem filtros nem cânones

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Na contramão das convenções acadêmicas e dos discursos frequentemente idealizados do meio editorial, a escritora Tania Miranda surge no cenário literário atual como uma voz singular, movida pela crueza da realidade e pelo instinto criativo. Recusando-se a enquadrar sua produção em fórmulas teóricas ou em bússolas morais herdadas de grandes pensadores, a autora constrói sua identidade artística a partir da observação direta do cotidiano. Em suas narrativas, o balcão do cartório onde atende o público transforma-se em um rico laboratório humano, de onde extrai a matéria-prima para uma literatura desprovida de “verdades absolutas” ou amarras formais.

Com uma postura firme e sem medo de desafiar consensos — seja ao manifestar seu desinteresse por cânones como Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga, ou ao criticar abertamente a dinâmica das redes de apoio mútuo e a mercantilização dos influenciadores literários —, Tania encontrou nos grupos do Facebook e em espaços democráticos de publicação os seus principais canais de conexão com os leitores. Nesta entrevista exclusiva ao Café Literário, ela compartilha uma visão desmistificada sobre o ato de escrever na era digital, discute a solidão do processo de criação em tempos de inteligência artificial e reflete sobre os desafios enfrentados pelos autores independentes diante das grandes editoras.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Nunca pensei sobre isso.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Sinceramente? A bússola moral e existencial que sigo em meus textos vêm da observação do dia a dia, da vida real. Não me embaso em pensamentos formulados por quem quer que seja.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Sei que isso soa um tanto presunçoso, mas não gosto da escrita do Drummond. E Rubem Braga nunca me serviu de referência.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Contar uma história sempre exigiu alguma liberdade para invenções ficcionais, mesmo quando relatamos algum acontecimento. Os textos, jornalísticos ou literários, têm sempre uma dose de realidade e outra de imaginação. Isso porque cada pessoa tem sua visão pessoal dos acontecimentos que presencia.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Os limites são autoimpostos pelo escritor, não pela comunidade à sua volta. E a verdade humana varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura. A minha verdade não é, de forma alguma, a sua verdade. Podemos até concordar em alguns pontos levantados, mas a visão de cada indivíduo é única. O que acaba por determinar que não existe uma “verdade absoluta”, visto que esta depende muito do contexto no qual foi invocada.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

É uma pergunta que não posso responder. Cada pessoa tem seu estilo próprio e ao moldar-se naquilo que dela é esperado pela comunidade em geral, acaba por “castrar-se” em sua verve criativa. Escrever, mais que uma técnica aprendida ao longo dos anos, tem muito de instinto ao desenvolver uma história. Você simplesmente narra os fatos como percebe.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Bem, sou uma escritora do Facebook. A maioria de meus grupos literários, a maioria de meus leitores estão concentrados nesse nicho. A receptividade é boa. Costumo receber feedbacks de meus seguidores, o que acaba me auxiliando quanto à direção a seguir.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Seria o ideal, mas não é tão simples de realizar. As redes até já existem, mas não vejo ninguém conseguir algo de concreto nestas. Geralmente, depois de algum tempo, o único resultado que se vê é pedido de ajuda monetária para o grupo, sem que haja algum benefício real para a classe.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Não impactam.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Desde que você não pense em ganhar dinheiro com a sua escrita, tudo bem. E desde que você não se importe em escrever para quem tem preguiça de ler. Se seu texto tem mais de 200 palavras recebe críticas de pseudo-leitores que não sabem nem o básico do básico. Claro, temos que incentivar os novos escritores que surgem, mas a grande maioria acaba optando por deixar todo o processo criativo “nas mãos” da IA, tendo assim a ilusão de que estão criando alguma coisa.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

De certa forma toda escrita é uma fuga da realidade do momento, assim como é o reflexo daquilo que te cerca. Você precisa, de alguma forma, se isolar do que ocorre no exterior e se concentrar em apontar aquilo que considera necessário de revisões no dia a dia. O problema é como expõe as situações. A verdade nem sempre é bem-vinda para a maioria.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Trabalho em um cartório, faço atendimento ao público. Muito do que vejo e ouço procuro replicar em meus textos.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Se eu tivesse essa resposta, seria uma campeã de vendas. Se alguém puder me dar a resposta para essa questão, ficarei feliz.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Na verdade, não fosse a abertura do Notibras e de alguns outros veículos jornalísticos voltados para a Cultura, eu estaria confinada apenas ao Facebook. Desde quando as grandes editoras estão preocupadas em investir em desconhecidos? É muito mais simples publicar grandes romances escritos há séculos. Mesmo porque até a publicação dos mesmos é gratuita. E quando determinadas pessoas que se denominam “influencers literárias” resolvem falar sobre determinado livro gratuitamente, procuram sempre aquele que está em voga. Falar de um trabalho de autor desconhecido, só em troca de pagamento. E nunca é barato.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

“O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração.”

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