Rachadinha no lugar
Tarcísio foi preterido porque não pertence à família
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Me recuso a aceitar a versão conveniente apresentada pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, sobre a não candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência da República. Segundo ele, Tarcísio teria cometido “erros políticos” ao não atender, nos momentos certos, aos pedidos de Jair Bolsonaro, e por isso teria perdido a chance de ser o escolhido para 2026. Para mim, essa narrativa não se sustenta.
Não é verdade que Tarcísio não foi candidato porque “errou o timing” ou porque deixou de obedecer a ordens. A razão é muito mais simples e muito mais incômoda para quem insiste em dourar a pílula: Tarcísio não foi escolhido porque não é da família. Não tem o sobrenome Bolsonaro. E, dentro da lógica que rege o bolsonarismo, isso pesa mais do que qualquer desempenho em pesquisas ou capacidade eleitoral.
A família Bolsonaro é autocentrada, fechada em si mesma, e jamais admitiria abrir mão do protagonismo para alguém de fora do clã. Mesmo diante de números melhores e de maior viabilidade eleitoral, a confiança nunca esteve em jogo de forma real. Nem mesmo Michelle Bolsonaro, que carrega o sobrenome e foi alçada a figura política por conveniência, pareceu digna de confiança plena. Quem dirá Tarcísio, que sempre foi um aliado funcional, mas nunca um “dos seus”.
Há ainda um traço que não pode ser ignorado: Bolsonaro tem uma personalidade claramente persecutória. Desconfia de todos, vê ameaças onde elas não existem e interpreta qualquer autonomia como traição em potencial. Nesse ambiente, ninguém cresce demais sem despertar suspeita. E ninguém, absolutamente ninguém, pode brilhar mais do que o patriarca.
Portanto, quando dizem que “agora é tarde” para Tarcísio, eu diria que nunca houve, de fato, um momento certo. A escolha nunca foi técnica, estratégica ou eleitoral. Foi, e continua sendo, familiar, personalista e marcada por uma lógica de poder que não admite substitutos, apenas herdeiros.