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1964 - RJ

Teatro ao ar livre

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Eram os idos de março. Não em Roma, no ano de 44 a.C., que assistiram ao assassinato de Júlio César. Eram os idos de março de 1964, no Rio de Janeiro. Em um país (ainda) cheio de malemolência, os cidadãos descobriam o ódio e a intolerância política. Metade apoiava as reformas de base propostas pelo governo João Goulart, enquanto a outra metade apoiava o golpe militar, preparado cada vez mais abertamente nos quartéis.

Só que esse texto não é sobre política (bem, é um pouquinho). Antes que estrebuchasse não César, mas a democracia brasileira, com a derrubada do presidente constitucional, ocorreu a Morte de Juca pelos Tiros de Tonho. Era assim que os dois amigos designaram a cena no ensaio final, uma cena que poderia abrir-lhes as portas do teatro e do cinema.

A ideia inicial era Tonho tombar com os disparos de uma pistola presenteada a Juca pelo pai, quando o garoto completou 16 anos. Tudo fake, é claro. Mas não era um revólver de faroeste, de brinquedo, que disparava espoletas e fazia um barulhinho; era uma pistola de filme de gângster, importada dos States, igualzinha a uma arma de verdade, que disparava tiros de festim e provocava um barulho dos diabos.

Os dois moleques, da mesma idade e inseparáveis, já haviam escolhido local e horário: um parque, deserto à noite, junto a uma avenida movimentada, a 1 da matina (no mínimo, iam ficar de castigo por voltar pra casa de madrugada, mas a Arte é uma amante exigente). Restavam a cena e, antes, o ensaio da. Foi aí que a coisa desandou.

Juca apontava a arma para Tonho e berrava PAM!. A vítima devia gritar de dor e cair por terra, só isso; mas Tonho tinha outra opinião. Não ia sujar a roupa lançando-se ao solo, então abaixava devagarinho, até sentar. E, disposto a aproveitar seu momento de estrelato, multiplicava falas inexistentes no roteiro. Tipo assim:

— Pam! – berro de Juca, depois de apontar a arma.

— Oh, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Fui atingido por um tiro à queima-roupa, perco as forças, sinto que vou morrer! – fala de Tonho, já sentadinho no chão.

Diante de tanta canastrice, Juca explodiu:

— Tonho, não dá, cê representa mal demais!

O canastrãozinho fechou a cara.

— Então vou ser a porra do assassino e você fica sendo o presunto!

Juca não gostou, morria de ciúme da “sua” pistola, mas acabou cedendo. Trazer para junto de si as musas do teatro e do cinema valia qualquer sacrifício, e a canastrice de Tonho com certeza as mandaria rapidinho de volta para os bosques da Grécia.

A ideia era soltar os cachorros quando um automóvel passasse, a baixa velocidade, e depois ficar rindo do motorista e de sua família, quando eles descobrissem que, entre mortos e feridos, salvaram-se todos, a coisa não passava de uma improvisação teatral ao ar livre. Mas o desajeitado Tonho disparou justamente quando passava um carro com uma luz no capô: não um camburão, mas uma viatura policial.

— Ai! — gritou Juca, com um grito de dor bastante passável, lançando-se em seguida por terra.

O meganha saltou do carro e correu na direção do suposto assassino, empunhando uma arma. Vendo Tonho paralisado de medo, Juca começou a explicar, enquanto levantava.

— Seu policial, estou bem, tiro de festim. Trabalho escolar, para ver a reação do quem assistisse à cena.

— Porra, seus merdas, eu podia ter mandado bala no mané com a pistola. E depois na vítima, por me assustar quando se ergueu…- e deu um risinho.

Juca e Tonho conseguiram esboçar um sorriso, pediram mil desculpas, juraram nunca mais improvisar uma cena teatral em plena rua e voltaram para casa, felizes por poderem expiar sua culpa com o castigo (e talvez as porradas) que receberiam dos pais. Em resumo, felizes por terem sobrevivido.

Sobreviveram porque, como dito acima, eram os idos de março de 1964. Se o episódio se passasse meses depois, anos depois, décadas depois, com os militares mandando e desmandando e a polícia com carta branca para barbarizar, é bem provável que a autoridade acabasse com os dois. Em seguida, era só meter uma trouxinha de maconha nos bolsos dos moleques, colocar um revólver velho na mão de pelo menos um, e estava pronto o cenário. O enredo é bem conhecido: dois traficantes de entorpecentes foram detidos, um deles (ou ambos) disparou (dispararam), foram abatidos, um com um tiro no peito, outro nas costas, ao tentar fugir. E isso porque o policial não gostou do susto de ver a suposta vítima levantar, ou porque curtiu a pistola importada e decidiu ficar com ela, ou de pura e simples maldade.

Infelizmente, se ocorresse na atualidade, o desfecho e a narrativa seriam os mesmos.

Coisas do Brasil.

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