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Tecnologia enterra velhos recados reais e concretos

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Outro dia, procurando uma anotação antiga numa gaveta, encontrei um pedaço de papel já amarelado pelo tempo. Nele havia apenas uma frase escrita às pressas: “João passou aqui. Pediu para você ligar quando chegar.” Fiquei olhando aquele bilhete por alguns minutos e me dei conta de que fazia muito tempo que eu não recebia um recado. Não uma mensagem de celular, que chega a toda hora, mas um recado daqueles que pareciam fazer parte da vida de todo mundo e que, sem que ninguém percebesse, simplesmente desapareceram.

O recado era uma instituição brasileira. Circulava pelas ruas, atravessava calçadas, passava pelos balcões das padarias, pelas portarias dos prédios e pelos quintais das casas. Bastava encontrar alguém conhecido e pedir: “Se você vir o Pedro, diga que estive procurando por ele.” O mais curioso é que ninguém perguntava se a pessoa anotara, se lembraria mais tarde ou se precisava confirmar a informação. O recado seguia seu caminho com uma naturalidade que hoje parece quase improvável.

Nas cidades do interior, e mesmo em muitas cidades médias, havia ainda um personagem que fazia parte dessa rede invisível de comunicação: o locutor de rádio. As emissoras reservavam alguns minutos da programação para ler os recados enviados pelos ouvintes. Entre uma música e outra, a voz conhecida anunciava: “Atenção, seu Joaquim, da Fazenda Santa Rita. Dona Tereza avisa que o remédio chegou e que o senhor pode passar na cidade.” Aquela mensagem era ouvida por milhares de pessoas, embora interessasse a apenas uma. Ainda assim, quase sempre chegava ao destino, porque alguém escutava, encontrava seu Joaquim na feira, na venda ou na igreja e repetia exatamente o que ouvira.

Pensando bem, a vida inteira funcionava assim. Os encontros também eram construídos sobre pequenos pactos silenciosos que hoje talvez parecessem arriscados demais. Bastava combinar: “Domingo, às seis da tarde, em frente ao cinema.” Não era preciso acrescentar mais nada. Ninguém perguntava qual entrada, não havia necessidade de compartilhar a localização nem de avisar que estava saindo de casa. Quem chegava primeiro comprava um chiclete na bomboniere, observava o movimento da rua, olhava o relógio de vez em quando e esperava, simplesmente porque era isso que as pessoas faziam.

Se o outro demorasse alguns minutos, a primeira reação dificilmente era desconfiar. Imaginava-se que o ônibus havia atrasado, que um pneu furara, que aparecera uma visita inesperada ou que alguma outra circunstância comum da vida explicava aquele atraso. A desconfiança não ocupava automaticamente o primeiro lugar entre as hipóteses. Talvez porque a confiança já estivesse ali, dispensando explicações.

É curioso perceber como a tecnologia resolveu problemas enormes e, ao mesmo tempo, alterou discretamente alguns costumes que pareciam pequenos, mas sustentavam boa parte da convivência. Hoje sabemos, em tempo real, onde estão nossos filhos, nossos amigos e nossos colegas de trabalho. Acompanhamos o carro que se aproxima, a entrega que saiu para distribuição e até o pontinho azul caminhando pelo mapa. Nunca tivemos tanta informação disponível e, ainda assim, raramente nos permitimos a serenidade de esperar alguns minutos sem consultar uma tela.

Não sinto saudade da lista telefônica, dos mapas de papel nem da fila do orelhão. Gosto das facilidades que a tecnologia nos trouxe e seria absurdo fingir o contrário. O que me faz falta, de vez em quando, é outra coisa. É lembrar que existiu um tempo em que boa parte da nossa vida cotidiana funcionava apoiada numa confiança tão natural que ninguém sequer pensava nela. Ela estava presente no recado deixado com a vizinha, no anúncio feito pelo locutor da rádio, no encontro marcado para a porta do cinema e até no bilhete preso à geladeira.

Talvez seja por isso que aquele pedaço de papel encontrado na gaveta tenha me prendido por alguns minutos. Ele não guardava apenas um aviso escrito às pressas. Guardava a lembrança de uma época em que as pessoas acreditavam que um recado seria entregue, que um encontro aconteceria no horário combinado e que, se alguém demorasse um pouco mais, haveria certamente uma boa razão para isso.

Hoje compartilhamos a localização quase sem pensar. Naquele tempo, compartilhávamos confiança. Talvez por isso um simples “domingo, seis da tarde, em frente ao cinema” bastasse para duas pessoas se encontrarem. E, curiosamente, também para que nunca se perdessem uma da outra.

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