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Processo evolutivo

Tema contraditório, idoso é jovem que deu certo

Publicado

Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto Editoria de Imagens/IA

Como vivo o presente intensamente, nunca exagero na valorização do passado e costumo contemporizar quando peso os velhos e os novos tempos, definitivamente não sou saudosista. Contudo, a grande descoberta é para que serve ou serviu o poder conquistado se continuo achando que as melhores coisas da vida foram conquistadas na infância, adolescência e juventude. Ou seja, é desnecessário o poder e ser poderoso se voltaremos para o mesmo lugar de onde viemos. Isso é bíblico. Etarismo à parte, como é bom chegar à terceira idade e lembrar disso tudo. Hoje, tenho certeza de que idoso é um jovem que deu certo.

Esse tipo de pensamento faz parte das velhas contradições. É fundamental tê-las, vivê-las, experimentá-las, avaliá-las e, principalmente, passá-las adiante. Como é importante ter sempre uma boa história para contar.  Como foi bom ter vivido num mundo de incorreções, de paradoxos, mas de seriedade e zero de hipocrisia. Que bom ter vivido para descobrir que os irmãos e os amigos que eventualmente ficaram pelo caminho são eternos e que certamente nos reencontraremos em outro plano. É a lei da vida, é a razão da existência.

É fantástico lembrar que, como jovens, adolescentes ou adultos, podíamos usar adjetivos no aumentativo ou no diminutivo como referência a amigos e conhecidos afrodescendentes, acima ou abaixo do peso, de cabelos crespos ou alisados, efeminados, desprovidos de beleza ou moradores de favelas. Era démodé usar eufemismos. Quase nada era entendido ou recebido como ofensas ou crimes. Ah! as contradições. O que seria do Homo Erectus e do Homem de Neandertal se não fossem as discrepâncias do Homo Sapiens?

Elas deveriam fazer parte do processo evolutivo. No nosso caso, é involutivo. Por outro lado, é gratificante ter vivido para provar do que a atualíssima família Jetson dos quadrinhos experimentou há quase 70 anos; ter conhecido a história de Péricles e seu Amigo da Onça; ter me transformado em homo celularis, apesar de não aceitar abandonar o mundo analógico; viver a evolução involutiva da espécie; e, sobretudo, curtir as novidades digitais, mesmo que não as utilize. São as nossas – ou minhas – contradições. Embora sejamos o que somos, queremos ser o que nunca poderemos ser.

Longe do cabotinismo, prefiro ouvir meus discos na velha vitrola às new waves; adoro o WhatsApp, mas admito que era muito bom esperar as respostas dos Correios. Parafraseando Ary Barroso na célebre Aquarela do Brasil, abri as cortinas do meu passado, fechei definitivamente a mala do poder e decidi experimentar todas as fontes murmurantes do cerrado. É aqui “onde eu mato minha sede”. Impensável, mas alcancei a era do celular, de conversar online com o restante do mundo.

Inimaginável é perceber que, por conta da modernidade, deixamos de falar com quem está à nossa frente, na mesma mesa de jantar ou dividindo o mesmo espaço de um consultório médico. Sentar-se em um desses locais significava conhecer gente e, na pior das hipóteses, saber boa parte da vida do interlocutor. Na melhor, poderia até começar um curto, médio ou longo relacionamento. Hoje, as pessoas sequer se cumprimentam. É cada uma na sua vibe. É a vida que temos para viver.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala, e usa um Notebook para escrever assuntos pontuais para Notibras

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