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Liberdade

Temor é não voar

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Autor/Imagem:
Ronaldo Ferreira de Almeida - Foto Francisco Filipino

Ela preferiu subir até o terraço do prédio pelas escadas. A última porta corta-fogo bateu e isso a fez tremer por alguns instantes. Na sua mão direita, um livro que estava relendo. Era um clássico da literatura mundial. – “Os clássicos são os meus melhores amigos.” – dizia ela – “Eles sempre me dizem o que preciso ouvir outra vez”.

O céu estava limpo. Ela olhava para a imensidão do mar. Pensou, pela primeira vez, qual era o sentido da felicidade e onde ela morava. Sentada no alto do seu prédio, pensava no resultado médico no seu bolso: diagnóstico de câncer. “A vida é mesmo patética” – Disse para si mesma, enquanto uma lágrima rolava do rosto.

Sofia era uma jovem inteligente e descolada. Acabara de voltar de uma viagem da Europa. Recordou o Café Louvre e pensou em Franz Kafka, no Instagram postou a frase: – Eu sou uma metamorfose. Era amante dos livros e da vida. Estava no meio de seu mestrado em filosofia. Agora a vida descortinava algo mais intrigante que um teorema ou paradoxo. Era descrente de qualquer sentimento religioso. Era uma ateia convicta. Considerava a religião o mal-estar da humanidade. Mas, diante daquele barulho das ondas e da imensidão do mar. Misturado ao vento sibilar do vento quente e o suor frio que escorria com a lágrima silenciosa. Sentiu medo do futuro.

Num átimo viu toda a sua vida passar diante das suas memórias. Fechou os seus olhos e abriu os braços. O seu corpo alcançaria o asfalto em alguns segundos. A jovem não queria terminar a sua vida amassada num asfalto da Zona Sul. “A vida é uma conquista diária” – disse a frase, com os olhos ainda cerrados. O voo foi inevitável. O seu clássico rodopiou várias vezes até cair incólume no chão cinzento. Se sentiu aliviada por ter sido ‘Temor e Tremor’ do filósofo Søren Kierkegaard. O livro que trazia na mão direita.

Ela saiu às pressas daquela mureta. Ver o livro caído ao chão nunca fez tanto sentido de existência. Talvez serviu de metáfora para a sua própria vida. Ela se via agora, não como um ser jogado no mundo, mas como alguém que espantava todo sentimento nauseante. Ela prometeu para si mesma dar o salto de Fé. A verdadeira metamorfose estaria por vir. Permitir-se viver o que a vida tem para ensinar. Mesmo que não soubesse o que seria esse voo.

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Ronaldo Ferreira de Almeida é poeta e escritor.
É colaborador do portal da Agência de Notícias das Favelas.
Autor dos livros: O amor deitou âncora e Consertos Poéticos Para Dias Melhores.

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