Esperando outubro
Tempo vira aliado da direita na disputa pelo Planalto
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É cedo, muito cedo para qualquer sentença definitiva sobre 2026. Quem crava hoje a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva corre o risco de repetir erros históricos que a política brasileira coleciona com frequência.
As pesquisas de opinião mais recentes indicam, sim, competitividade. Mas indicam também algo igualmente relevante: a polarização permanece viva, pulsante e estrutural. O país segue dividido entre dois campos ideológicos que se reorganizam, trocam lideranças, ajustam discursos — mas não perdem intensidade.
Desde 2018, o Brasil vive uma disputa marcada por identidade política e emocional. A ascensão de Jair Bolsonaro consolidou um campo conservador com forte capilaridade social. A vitória de Lula em 2022 não dissolveu essa base; ao contrário, reorganizou-a na oposição.
As pesquisas atuais apontam cenários apertados em simulações de segundo turno. Em alguns recortes, Lula lidera; em outros, a margem está dentro da chamada “zona de empate técnico”. Isso revela um eleitorado rigidamente distribuído, com poucos pontos de fuga no centro.
Não se trata apenas de números, mas de estrutura política. A direita mantém governadores fortes, presença no Congresso e musculatura digital. A esquerda, por sua vez, conserva densidade eleitoral nas regiões Norte e Nordeste, além de influência sindical e partidária consolidada.
Historicamente, eleições presidenciais no Brasil são fortemente influenciadas pelo desempenho econômico no biênio anterior ao pleito. Se houver crescimento consistente, controle inflacionário e percepção de melhora na renda, a vantagem do incumbente tende a aumentar. Caso contrário, abre-se espaço para a narrativa da mudança.
O desafio para Lula é transformar indicadores macroeconômicos em percepção concreta na ponta. A aprovação de políticas públicas precisa ser acompanhada por sensação real de melhora de vida; e isso nem sempre ocorre no mesmo ritmo das estatísticas.
Estamos ainda a 10 meses da eleição. Nesse intervalo, podem ocorrer fatores que pesaram na balança, a exemplo de reconfigurações partidárias; consolidação ou desgaste de nomes da direita; emergência de uma candidatura alternativa ao eixo tradicional; e, mudanças no cenário internacional com reflexos internos.
Além disso, investigações, crises institucionais ou fatos imprevisíveis podem alterar completamente o tabuleiro. A história recente do país é pródiga em reviravoltas. Vale registrar que a direita está fragmentada, mas ativa.
Embora o bolsonarismo continue sendo o principal polo oposicionista, há movimentos em curso para ampliar o espectro conservador com nomes considerados mais palatáveis ao centro. A disputa interna pela liderança do campo da direita ainda está em aberto, e isso pode redefinir forças até 2026.
Se houver unificação precoce, a polarização se intensifica. Se houver fragmentação, Lula pode se beneficiar de um segundo turno mais confortável. Mas nada disso está decidido. Portanto, cravar hoje a reeleição de Lula seria ignorar três fatores essenciais:
A persistência da polarização ideológica;
A imprevisibilidade do ambiente político brasileiro;
A força organizacional da oposição.
O cenário atual aponta para disputa acirrada, não para vitória garantida. A política brasileira tem demonstrado que o jogo só começa a se definir de fato no último ano — às vezes, nos últimos meses. Até lá, qualquer certeza absoluta é mais torcida do que análise.