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O corredor

Terror entre irmãos resgata a velha Planaltina

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Renato Araújo/Agência Brasília

As crianças adoravam as festas de fim de ano na casa da avó. Irmãos e primos, todos entre seis e doze anos, se divertiam adoidados. Enquanto isso, os adultos se fingiam mais vitoriosos do que eram. Na verdade, tirando dois ou três, o restante passara mais um ano de muito sufoco para pagar as contas. Algumas, aliás, continuavam pendentes, sem que isso fosse empecilho para que a pompa continuasse verberando entre a parentada.

Cora, a velha matriarca, estava prestes a completar 92 anos e, apesar da avançada idade, continuava recebendo filhos, noras, genros, netos, bisneto e agregados com o mesmo sorriso daquela dentadura de dentes perfeitamente desalinhados. Isso, aliás, gerava dúvida em alguns, pois não entendiam como é que uma mulher tão velha ainda mantinha todos os dentes na boca. Mal sabiam que todos eles repousavam noite adentro em um copo cheio d’água na cabeceira ao lado da cama daquela senhora.

A casa, apesar de antiga, era aconchegante. Fica na paradisíaca Planaltina, nascida bem antes de Brasília e incorporada ao quadradinho quando JK decidiu delimitar a região da nova Capital. Seis quartos, com uma única suíte, justamente a que Cora repousava. Todos os aposentos eram dispostos em um longo corredor mal iluminado. Quando a casa estava cheia, não eram raros os sons de passos indo em direção ao banheiro, que ficava no final do corredor. Isso, aliás, era motivo para inúmeras histórias que as crianças mais velhas contavam para as menores, enquanto a molecada se espremia num único quarto, justamente o que ficava na ponta oposta ao banheiro.

Naquela noite, já prestes a virar madrugada, Bernardo reuniu os miúdos ao seu redor. Ele mantinha uma lanterna acesa sobre seu rosto, a única luz naquele quarto escuro. Os mais novos se espremiam na vã esperança de se manterem seguros, certos de que estavam prestes a mais uma história de terror contada pelo parente. Até o pequenino Carlinhos, que morria de medo de tudo, não conseguia evitar manter os ouvidos bem abertos para captar cada palavra do mais velho.

Bernardo, que não era tão corajoso como os outros imaginavam, gostava de provocar arrepios na sua pequena plateia. Mal iniciava a história, fazia pausas estratégicas, ao mesmo tempo em que iluminava os caninos pontiagudos, o que lhe conferia, até certo ponto, um ar sombrio. Todos ficavam paralisados de medo, talvez até o próprio narrador.

A história da vez era sobre uma velha muito mais velha que a matriarca da família. Sim, isso mesmo! Muito mais velha! De tão velha, contava com quase 180 anos. Para ser mais exato, 179. Seu nome? Bem, ninguém sabia ao certo, mas todos a chamavam de Zuza.

Ela teria nascido ali naquela casa, justamente naquele quarto, bem antes da chegada da família real ao Brasil. Nascida escrava, morreu livre, mas ficou presa àquele lugar pelo resto da vida e, dizem, continuava por ali arrastando seus pés calejados numa sandália de pano puído. Por isso, era possível, ainda hoje, ouvir os passos lentos da velha Zuza vindos do enorme corredor em frente.

Enquanto Bernardo falava, eis que todos sentem um calafrio percorrendo a espinha. Passos no corredor. Arrastando-se. Depois de um breve momento, silêncio total. Em seguida, a criançada ouve alguém se arrastando de volta, que, por um instante, parou diante da porta do quarto deles.

Todos se espremeram ainda mais, como se fosse possível que cada um conseguisse sentir o pulsar do medo percorrendo aqueles pequenos corpos. Os passos prosseguem até a outra ponta do corredor. Os ouvidos atentos da meninada escutam o ranger de uma porta se fechando. Parece ser o fim daquilo. Parece.

Ninguém quer mais escutar a história do Bernardo. Até este se sente dissuadido, não quer continuá-la. Espremidos ainda mais, aqueles corpinhos miúdos adormecem um a um, até que todos se entregam aos próprios sonhos.

A madrugada vai dando lugar ao dia. Um facho de luz vindo lá de fora começa a despertar aquelas crianças. A primeira a acordar foi a Marina, uma das mais crescidinhas. Mal abriu os olhos, ela percebeu que seu irmão mais novo, o Carlinhos, não estava ali. Teria sido carregado pela velha Zuzu?

Assustada, ela começou a procurar pelo menino em todos os lugares. Debaixo das camas, atrás do armário. Nada! Carlinhos havia desaparecido. Como já era manhã, todos tomaram coragem para procurar pelo menino fora do quarto.

Com os olhos cheios de lágrimas, Marina tomou a frente, enquanto os outros a seguiram. Olhou o corredor de um lado a outro. Nenhum sinal do Carlinhos. Ela observou que a porta do banheiro estava entreaberta. Tomou coragem e, a passos lentos e cautelosos, foi até lá.

A menina, diante daquela porta, deu um leve toque, o suficiente para fazê-la ranger até se abrir por completo. Marina não conseguiu evitar um grito, que, de tão agudo, despertou todos os adultos da casa. Ela estava diante do seu pequeno irmão.

O cheiro horrível vindo do banheiro, no entanto, foi um alívio para Marina. Ela entendeu, naquele exato momento, que Carlinhos teve uma dor de barriga durante a madrugada e acabou adormecendo sentado na privada.

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