Curta nossa página


Fábula do muro

Todas as mulheres amigas do Defensor do Povo

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Acervo Pessoal

No início dos anos 70 do século passado, mesmo crianças com boa visão e audição melhor ainda, à época, lembram-se, hoje, do Caso Watergate, onde Richard Nixon tinha muitos homens. O presidente dos Estados Unidos tinha homens do partido, homens que sabiam demais, homens que falavam de menos. Homens escondidos atrás de portas, gravadores, cofres, telefones e silêncios. Mas Nixon acabou descobrindo, tarde demais, que certos muros não desabam quando alguém os empurra; desmoronam quando começam a falar.

Brasília, guardadas todas as proporções, porque aqui não há Watergate, Salão Oval nem garganta profunda soprando segredos numa garagem, resolveu produzir sua pequena fábula, onde os homens saem de cena e entram as mulheres.

No centro da fotografia estava Kleber Melo, o Defensor do Povo, como é apresentado por seus correligionários. Em volta dele, dezenas de mulheres, com diferentes rostos, histórias, profissões e lugares de Brasília. Pareciam formar uma muralha humana, embora ninguém tivesse combinado defesa alguma. Talvez fosse apenas uma fotografia, mesmo que todo político saiba que raramente é apenas uma foto.

Antes daquele retrato havia outro cenário menos iluminado, circulando nos corredores partidários do Novo, onde, segundo a narrativa dos aliados de Kleber, crescia uma resistência à sua candidatura a deputado distrital. Não era oposição declarada, mas algo pior, do tipo cochicho.

— Ele não combina conosco, dizia alguém.

Outro acrescentava:

— As bandeiras dele não são as nossas.

Até que apareceu a palavra que, em determinados ambientes políticos, vale por uma sentença:

— Comunista.

Kleber Melo, defensor público de carreira, havia cometido o pecado curioso de defender gente. Pobres, vulneráveis, pessoas esquecidas pelo Estado. E, naquele tribunal informal montado dentro da própria legenda, houve quem confundisse atuação institucional com catecismo ideológico.

A acusação corria de ouvido em ouvido. Comunista. Comunista? Kleber teria olhado para os lados procurando a foice e o martelo que esqueceram de lhe entregar, mas nada encontrou. O agora candidato viu os muitos processos em que atuou, folheou um exemplar da Constituição que se mantém como seu livro de cabeceira, e encontro, no WhatsApp, mensagens de muitas mulheres.

Enquanto alguns erguiam um muro silencioso para impedir que seu nome chegasse às urnas, elas se aproximavam. Uma depois da outra. Não necessariamente porque pensassem igual sobre tudo. Democracia não exige uniformidade. Exige espaço. E espaço era justamente o que estava em disputa.

A pequena conspiração brasiliense — chamemos assim apenas pela licença concedida às fábulas — não precisava de arrombadores entrando de madrugada numa sede partidária. Não havia fita adesiva na fechadura, dólares escondidos nem agentes presos pela polícia.

Bastava a palavra “Comunista”, seguida de “Incompatível” e por fim “Não pode.” Palavras também levantam muros; entretanto, havia um problema para os construtores daquela parede. É que do outro lado começaram a aparecer pessoas. Eram elas, as mulheres amigas do Defensor.

Vieram de diferentes cantos da cidade e de diferentes experiências de vida. Algumas talvez conhecessem profundamente a política. Outras provavelmente estavam muito mais interessadas naquilo que a política deveria fazer pelas pessoas. E o muro começou a rachar mesmo sem ser tocado por um martelo ou marreta. O que se notou foi presença, como conta a fotografia

Kleber aparece no meio delas, e aquela imagem permite uma interpretação quase cinematográfica, revelando um candidato que atravessou a resistência dentro da própria casa partidária e chegou ao outro lado cercado justamente por quem resolveu lhe emprestar rosto, voz e companhia.

Com o nome homologado em convenção, Kleber Melo seguiu adiante e registrou no Tribunal Regional Eleitoral sua candidatura a deputado distrital. Em suma, a porta que alguns pretendiam fechar, estava aberta.

E foi então que alguém poderia ter perguntado:

— Afinal, quem venceu?

Kleber talvez respondesse:

— Ninguém venceu ainda. A eleição nem começou.

Resposta típica de defensor de alto nível, do dono da bola que não chuta para fora. Fosse ele um político qualquer, diria outra coisa.

Watergate terminou com a queda de um presidente. Esta história, infinitamente menor e sem qualquer equivalência histórica ou criminal com aquela, termina apenas com um homem autorizado pelo próprio partido a colocar seu nome diante dos eleitores.

Mas as fábulas não vivem do tamanho dos acontecimentos, e sim das metáforas. Nixon teve Todos os Homens do Presidente. Já Kleber, na fotografia brasiliense, parece ter encontrado outra companhia. Todas as mulheres amigas do Defensor. E talvez esteja aí a ironia mais saborosa dessa pequena guerra partidária. É que tentaram carimbar nele uma ideologia, mas as mulheres responderam com uma candidatura forte, amparada como os braços de uma mãe que acolhe o bebê. Se tentaram levantar um muro, elas fizeram uma roda.

E quando finalmente abriram caminho para o Defensor passar, ninguém precisou perguntar para onde ele iria. O endereço estava escrito havia muito tempo. Às urnas.

……….

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.