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Velhas histórias

Toninho, Malvadeza e Pureza, porque a política sempre foi assim

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Antônio Carlos Magalhães nasceu em Salvador e, quando menino, era simplesmente Toninho. O problema veio depois, quando Toninho entrou para a política e alguém resolveu completar o apelido: virou Toninho Malvadeza.

A versão mais repetida, registrada inclusive em perfis publicados depois de sua morte, atribui a autoria ao general Golbery do Couto e Silva, um dos homens mais poderosos e inteligentes do regime militar. Golbery conhecia bem ACM e teria encontrado duas palavras capazes de resumir uma personalidade política inteira. Não era propriamente um elogio, mas também não chegou a ser um problema.

ACM percebeu rapidamente que, em política, ser chamado de malvado podia ser melhor do que passar por inofensivo. Incorporou a fama, brigou, atacou adversários, protegeu aliados, distribuiu desaforos e cultivou a imagem de homem com quem não se brincava. Malvadeza acabou funcionando quase como marca registrada.

Até que a política brasileira mudou. Em 1984, quando o regime militar caminhava para o fim, ACM rompeu com a candidatura de Paulo Maluf e embarcou na eleição de Tancredo Neves. O velho aliado dos militares atravessou a ponte e participou da construção da Nova República. Era uma transformação e tanto e, já que mudava de posição política, apareceu também a oportunidade de mudar de apelido.

Surgiu Toninho Ternura.

ACM gostou. O homem que durante anos carregara Malvadeza passou a exibir também sua versão afetuosa. Chorava com facilidade, abraçava amigos e mostrava que, debaixo do coronel, também havia coração. Só que Ternura nunca conseguiu derrotar Malvadeza. Os dois apelidos passaram a conviver, mas um deles sempre chegava primeiro.

Anos depois, numa entrevista a Jô Soares, veio a pergunta inevitável: de qual dos dois o povo baiano gostava mais, Toninho Malvadeza ou Toninho Ternura?

ACM não chegou onde chegou dando respostas que pudessem prejudicá-lo:

— Dos dois. A mistura dos dois.

Nem matou Malvadeza, nem abandonou Ternura. Talvez tenha sido uma das melhores definições que o próprio Antônio Carlos Magalhães deu de Antônio Carlos Magalhães.

ACM foi prefeito de Salvador, três vezes governador da Bahia, ministro, senador, presidente do Senado e construiu um grupo político tão poderoso que ganhou até nome próprio: carlismo. Atravessou regimes, governos, alianças e adversários, mas houve uma coisa que nem todo aquele poder conseguiu controlar: o apelido que entraria para a história.

Tentou Toninho Ternura, mas a política brasileira, essa malvada, preferiu Malvadeza.

A política brasileira sempre foi assim.

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