Folia de Reis
Tradição mantém viva a alma da cultura nordestina
Publicado
em
Entre o som dos pandeiros, a sanfona que suspira memórias e as vozes que entoam cantigas antigas, a Folia de Reis segue resistindo ao tempo como uma das manifestações mais autênticas da cultura popular brasileira. No Nordeste, essa tradição ganha cores próprias, misturando fé, música e identidade comunitária em um ritual que atravessa gerações.
Celebrada entre o Natal e o Dia de Reis, em 6 de janeiro, a Folia rememora a peregrinação dos três Reis Magos — Gaspar, Melchior e Baltazar — até o menino Jesus. Mas, para além da narrativa bíblica, o que se vê nos povoados, cidades do interior e periferias urbanas nordestinas é um ato coletivo de preservação cultural, onde religião e vida cotidiana caminham lado a lado.
No Nordeste, os grupos de Folia — também chamados de ternos, ranchos ou companhias — percorrem ruas e estradas de terra visitando casas, levando bênçãos, música e alegria. Os foliões vestem trajes coloridos, carregam estandartes e instrumentos simples, como violas, zabumbas, reco-recos e triângulos. Cada visita é um rito: canta-se, reza-se, agradece-se e, muitas vezes, partilha-se o pouco que se tem.
A hospitalidade nordestina encontra na Folia de Reis um de seus símbolos mais fortes. Quem abre a porta não recebe apenas uma cantoria, mas reafirma o pertencimento a uma tradição que ensina solidariedade, respeito e memória.
Em alguns estados nordestinos, a Folia incorpora elementos cênicos marcantes, como máscaras, personagens simbólicos e encenações, aproximando-se do teatro popular. Essas variações mostram como a tradição soube se adaptar aos contextos locais sem perder sua essência.
Mesmo enfrentando desafios como o êxodo rural, a urbanização acelerada e a falta de políticas públicas consistentes para a cultura popular, a Folia de Reis segue viva graças à transmissão oral e familiar. Avôs ensinam aos netos, mestres formam novos foliões, comunidades se organizam para não deixar a tradição desaparecer.
Mais do que uma celebração religiosa, a Folia de Reis é um arquivo vivo da história nordestina. Nela estão guardados sotaques, melodias, modos de viver e de crer. Em tempos de globalização acelerada e homogeneização cultural, a Folia resiste como um lembrete de que o Brasil profundo pulsa fora dos grandes centros.
Preservar a Folia de Reis é preservar a memória coletiva, é reconhecer o valor de quem canta para manter viva a própria história. No Nordeste, cada estrofe entoada, cada casa visitada e cada passo dado pelos foliões reafirma que tradição não é passado — é presente em movimento.