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O Lado B da Literatura

Três livros para um país que compra mais e lê menos

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

Han Kang, Irene Vallejo e Wander Melo Miranda recolocam linguagem, leitura e memória no centro do debate literário

Os números brasileiros contam duas histórias que não cabem no mesmo entusiasmo. No balanço divulgado para o primeiro semestre de 2026, o mercado editorial cresceu 11,6% em volume e 13,3% em faturamento na comparação com 2025. A ficção foi o principal motor desse avanço. A mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, porém, mostrou que 53% da população não havia lido nem sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Não há erro nas contas. Vender livros e formar leitores são coisas diferentes. O varejo pode se aquecer por força de alguns gêneros, fenômenos comerciais e comunidades digitais sem que o hábito da leitura avance na mesma proporção. É nesse intervalo, entre um mercado que comemora e um país que ainda lê pouco, que três lançamentos recentes merecem atenção.

Eles não pertencem ao mesmo gênero nem foram concebidos para conversar entre si. Ainda assim, aproximam-se por uma questão essencial: o que acontece com a palavra quando ela perde o corpo, o leitor ou a memória?

O silêncio de Han Kang

Lançado pela Todavia em 4 de agosto, Lições de grego, de Han Kang, tem 168 páginas e tradução de Natália Okabayashi. A escritora sul-coreana, vencedora do Nobel de Literatura de 2024, terá naturalmente o prêmio estampado em toda apresentação do livro. A medalha garante visibilidade, mas não deve engolir o romance.

A história reúne duas pessoas atingidas por perdas que alteram sua relação com o mundo. Uma mulher deixa de falar depois da morte da mãe e de uma disputa judicial pela guarda do filho. Seu professor de grego antigo perde progressivamente a visão e teme a dependência que se aproxima. Ele também carrega o desconforto de ter crescido entre a Coreia do Sul e a Alemanha, sem pertencer inteiramente a uma única língua.

O grego não aparece como adorno erudito. A aluna procura numa língua antiga, estranha ao uso cotidiano, uma passagem de volta à expressão. Han Kang se interessa pelo ponto em que a comunicação já não pode depender apenas da voz ou dos olhos. O encontro entre os personagens nasce menos de uma afinidade declarada do que do reconhecimento de uma falta.

Esse é o caminho mais fértil para ler o romance. Outro perfil geral da Nobel pouco acrescentaria. Lições de grego pede uma discussão sobre silêncio, linguagem e intimidade: como alcançar alguém quando as formas habituais de dizer e perceber deixam de funcionar? A resposta de Han Kang não está num discurso sobre superação, mas na aproximação cautelosa entre duas pessoas que precisam reaprender a presença.

A leitura e seus elos frágeis

Em Manifesto pela leitura, Irene Vallejo muda a escala do problema. A fragilidade já não pertence somente a uma personagem ou a uma relação, mas à própria cadeia que permite a existência social do livro.

O ensaio foi escrito originalmente em 2020, a convite da Federação de Editores da Espanha, e chega ao Brasil numa edição conjunta da Dublinense e da Seiva. São 80 páginas, com tradução de Julia Dantas e posfácio de Zoara Failla, socióloga responsável pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Depois do sucesso de O infinito em um junco, Irene poderia ter repetido a fórmula de uma longa história cultural dos livros. Preferiu um texto curto, de intervenção direta. Seu mérito não está em repetir que ler faz bem. Isso seria pouco. O livro chama atenção para as condições materiais que sustentam a leitura e para aqueles que costumam desaparecer quando se fala apenas de autores e vendas.

Em entrevista ao PublishNews, Irene identificou entre os pontos mais vulneráveis as livrarias de bairro e de pequenas cidades, as bibliotecas escolares e rurais, as editoras independentes e as pessoas que desejam ler, mas encontram pouco acesso ao universo cultural. A defesa do livro, portanto, não se resolve com declarações de amor à literatura. Depende de circulação, mediação e permanência.

Os dados mais recentes sobre o consumo dão razão à cautela. Em 2025, 18% dos brasileiros adultos compraram ao menos um livro, dois pontos percentuais acima do ano anterior, o equivalente a cerca de três milhões de novos consumidores. Na última compra de livro impresso, 53% escolheram o comércio on-line e 47% compraram presencialmente. É uma expansão real, mas ainda estreita diante do tamanho da população e insuficiente para garantir, sozinha, a sobrevivência dos pequenos agentes da cadeia.

O manifesto ganha força justamente por chegar num momento de números positivos no varejo. Crescimento comercial não é sinônimo de saúde cultural. Um setor pode faturar mais enquanto bibliotecas permanecem frágeis, livrarias locais lutam para sobreviver e o número geral de leitores recua. Irene Vallejo obriga o entusiasmo a prestar contas dessa diferença.

A vida dos livros de Graciliano

O terceiro lançamento volta-se para um autor que já não precisa ser apresentado, mas continua exigindo novas leituras. Graciliano Ramos: Vida e obra, de Wander Melo Miranda, chegou às livrarias em 11 de agosto pela Companhia das Letras. O volume tem 400 páginas e aparece 34 anos depois de O velho Graça, de Dênis de Moraes, primeira biografia de grande fôlego dedicada ao escritor alagoano.

Não se trata de substituir o trabalho anterior. Dênis de Moraes, jornalista, procurou sobretudo o homem por trás de São Bernardo, Angústia e Vidas secas. Wander Melo Miranda, crítico literário e professor emérito da UFMG, aproxima a trajetória pessoal do processo de escrita e da recepção crítica. Ele próprio define o resultado como uma “biografia dos livros” ao lado da biografia do autor.

Cartas, entrevistas e memórias familiares ajudam a reconstruir o prefeito de Palmeira dos Índios, o preso político, o homem às voltas com dificuldades financeiras e o escritor severo com cada frase. O interesse maior, contudo, está no modo como essas experiências atravessam a literatura sem reduzi-la a documento biográfico.

Graciliano corrigia e enxugava seus textos de maneira obsessiva. Essa luta contra o lugar-comum ajuda a explicar por que sua prosa permanece viva. Wander Melo Miranda acompanha também a história posterior das obras: como foram recebidas, interpretadas e incorporadas à ideia que o Brasil construiu de seu próprio realismo literário.

A pauta, aqui, não é apenas recontar os dez meses de prisão, a prefeitura ou a criação de Baleia. É compreender como se forma um clássico e por que ele precisa continuar sendo relido. Uma obra consagrada não permanece intacta numa prateleira; cada geração a interroga a partir de suas próprias violências e impasses.

Depois da novidade

Há um modo fácil de desperdiçar os três lançamentos: reduzir Han Kang ao Nobel, Irene Vallejo a frases edificantes sobre a leitura e Graciliano Ramos à lembrança escolar de Vidas secas. Em todos os casos, o nome conhecido funcionaria como atalho e esconderia a verdadeira novidade.

Os três livros tratam, em planos diferentes, da sobrevivência da palavra. Han Kang observa o instante íntimo em que falar e enxergar deixam de ser garantias de comunicação. Irene Vallejo examina a rede social e econômica sem a qual o livro não chega ao leitor. Wander Melo Miranda mostra que uma obra só permanece viva quando a memória crítica volta a interrogá-la.

As livrarias recebem muitos títulos em agosto. Estes três merecem cobertura porque não pedem apenas lugar na mesa de novidades. Perguntam o que será da literatura depois que a campanha de lançamento terminar. As vendas podem subir; o trabalho de formar leitores, proteger os caminhos do livro e conservar viva a linguagem continua muito longe de concluído.

Serviço

Lições de grego, de Han Kang. Tradução de Natália Okabayashi. Todavia, 168 páginas. Lançado em 4 de agosto de 2026.

Manifesto pela leitura, de Irene Vallejo. Tradução de Julia Dantas e posfácio de Zoara Failla. Dublinense/Seiva, 80 páginas, R$ 59,90.

Graciliano Ramos: Vida e obra, de Wander Melo Miranda. Companhia das Letras, 400 páginas, R$ 119,90. Lançamento em 11 de agosto de 2026.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). Instagram: @prof.danielmarchi.

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