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Contador de histórias

Triste é saber que cidadão que soluça, cai da cama e nega o golpe é mito

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Na vida de cada um por si e Deus por todos, o ideal é encontrar alegria nas pequenas coisas do dia a dia e valorizar cada momento como se fosse o último. Como a jornada é curta e não permite ensaios, que tal não ter medo dela. O primeiro passo é lembrar Albert Einstein é viver como se os milagres não existissem. O segundo é vivê-la como se tudo fosse milagre. Às vezes, temos a necessidade de também recorrer ao mestre Sigmund Freud para jamais esquecer que, embora sejamos feitos de carne, temos de viver como se fôssemos de ferro.

Se conseguirmos alguma longevidade, no meio do caminho perceberemos que uma vida sem desafios realmente não vale a pena ser vivida. Vou além e, parafraseando o físico francês René Descartes, digo que viver sem filosofar é o mesmo que ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir. Poetas, filósofos e pensadores à parte, eu nunca estive à toa na vida. Nem mesmo quando a banda passou “cantando coisas de amor”. Antes que me desencantasse com o doce que se acabou, saí pelo mundo achando que ele fora feito somente para mim.

Foi aí que descobri o tempo como o mais sábio de todos os conselheiros. Em seguida, percebi que as palavras se eternizam e constroem pontes na imaginação e que a picardia não falha sempre que trocamos o ódio, as desavenças e os exageros do extremismo por um novo amor. Por fim, entendi que são os verdadeiros amigos que tornam as risadas mais altas, as conversas mais gostosas e a vida mais feliz. Eles talvez não saibam de tantas coisas que eu sei, mas certamente sabem o que fariam se estivessem em meu lugar. No fim e ao cabo, são eles que sabem tudo a nosso respeito e, mesmo assim, continuam gostando da gente.

Nessa caminhada pelo mundo, me reimaginei em uma fantasiosa e louca viagem ao redor do planeta supostamente comandado por um capitão de bravata. Na subida aos céus, a primeira coisa em que pensei foi na escolha dos amigos de cara lavada e de alma exposta. São os mais leais. Embarquei e, após o primeiro enjoo, me informaram que o tempo perdido jamais será encontrado novamente. Acordei para a vida serena e sem medos, sempre seguindo um dos mais importantes aconselhamentos de Clarice Lispector: “Não tenho tempo para mais nada, pois ser feliz me consome muito”.

Com a convicção de que “meu passado é tudo o que deixei de ser”, optei por me transformar em um pretenso contador de histórias. Por meio delas, busquei refúgio na poesia e nos pensamentos filosóficos. Baseado neles, me deparei com pessoas que soluçam, soluçam, soluçam, morrerão soluçando, mas nunca param de mentir para si mesmas. Sem aceitar o sucesso alheio, são capazes de afirmar que globos de ouro são facilmente comprados com recursos da Lei Rouanet. Se fosse realmente fácil, eles poderiam ter comprado meia dúzia. Tentaram, mas ganharam, com louvor, a cama de alvenaria pela atuação no “filme” golpistas fracassados.

Que Deus derrame chuva de bençãos sobre suas cabeças ocas. Para eles, a vida sem medo não passa de um filme inacabado de terror. Não custa repetir que, melhor do que apoiadores aventureiros e idólatras interesseiros, são os companheiros sérios, aqueles que lutam para que a fantasia não se transforme em imerecida pretensão. De que adianta nos imaginarmos de ferro se a realidade bate à nossa porta diariamente mostrando que somos apenas arremedos de líderes. Sem querer politizar, mas já politizando a narrativa, é surreal ver que, num minúsculo quarto, com uma cama da qual cai sistematicamente, há um cidadão que governou um país continental por quatro anos e nada fez de proveitoso. Ainda mais surreal é ouvir brasileiros jurando que uma pessoa que nega o golpe é mito.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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